
Tive meu primeiro contato com a influenciadora Isabel Veloso em 2024, ao assistir ao podcast Inteligência Ltda, do qual já participei. O apresentador Rogério Vilela costuma sempre fazer uma pergunta ao final: “quais são suas últimas palavras?”.
Só que, naquele encontro, ele estava diante de uma paciente de cuidados paliativos, conhecida por compartilhar sua rotina de tratamento contra um linfoma de Hodgkin, câncer que se desenvolve no sistema linfático. O diagnóstico aconteceu em 2021, quando a adolescente paranaense recém debutava na existência.
Rogério cumpriu o rito soluçando.
Na época do programa, ela contava com a expectativa de poucos meses de vida.
Seu depoimento veio cortando:
“Eu sei que, quando eu me for, vai ser um momento muito de alívio, sabe? Só que eu sei que eu não vou mais ter lembrança nenhuma. Mas vocês vão. Então, a única coisa que eu pediria: só viva. Tipo, respira por mim o que eu não pude respirar. Viva por mim o que eu não pude viver. Ame o que eu não pude amar. Aproveita o seu filho da forma que eu nunca vou poder ter a experiência”.
Contrariando as previsões, Isabel resistiu por mais tempo do que a condenação clínica. Casou-se em Curitiba e gerou um filho, que completou um ano de idade em 29 de dezembro de 2025. É impraticável conceber o grau de sua batalha interna para formar uma família no meio de um calvário doloroso nos hospitais, raspando os cabelos em seis oportunidades para retomar a quimioterapia. Ela se mostrou uma heroína de um dia de cada vez.
Mas, de maneira tóxica, absurda, violenta, abusiva e covarde, alguns seguidores e comentaristas começaram a ventilar a hipótese de que ela havia armado tudo para obter audiência, insinuando que usava uma doença terminal para ganhar fama e a simpatia de todos. Porque ela simplesmente não morreu rapidamente – era como se desejassem que ela morresse. Não cumpriu o script da tragédia anunciada e seguiu vivendo, alheia aos ultimatos racionais e científicos.
Os abutres e urubus digitais não levavam em conta o seu milagre amoroso, de apego aos sonhos. Em dois anos, ela alcançou o que uma pessoa acomodada demoraria décadas. Manifestavam ainda uma ignorância médica sobre as idas e vindas na busca pela remissão, pois é comum achar que se está curado, e o câncer voltar de forma ainda mais agressiva.
Isabel Veloso partiu no sábado (10), aos 19 anos, devido a complicações após um transplante de medula óssea.
Assim como a sua emoção ofereceu um papel curativo com o seu exemplo de intensidade e insubordinação aos limites, a sua frágil condição expôs o quanto a internet pode ser nociva e destrutiva. O quanto circula gente má palpitando sobre o que não entende, o que não experimentou, e cometendo injustiças sem direito de defesa.
Isabel deixa um legado de coragem para seu pequeno Arthur.
Seu viúvo Lucas parece dar continuidade às suas últimas palavras:
“Viveu intensamente, amou profundamente, lutou até onde era humanamente possível — e até além. Nada do que vivemos foi em vão. Nossa história foi real, foi bonita, foi verdadeira. Construímos uma família, um amor que não depende do tempo nem da presença física para existir. Ela vive em mim, vive no nosso filho, vive em cada pessoa que foi tocada pela força dela”.





