Os primeiros dias do ano costumam ser cruéis aos pais de filhos crescidos. O Réveillon maltrata a esperança dos mais velhos.
É que sentem o gostinho da casa cheia na semana entre o Natal e o Ano-Novo, para lidar em seguida com o ninho vazio janeiro adentro.
O fato é que os pássaros comem os frutos da estação e voam. A árvore carregada se reduz a nostálgicos e atônitos caroços.
Coça-se novamente a ferida do desapego, que se encontrava cicatrizada.
Durante um breve hiato da ceia, recuam a uma época antiga de solicitação, de interesse, de agitação, de gritaria, de geladeira visitada a cada dez minutos, de implicâncias amorosas, de sala menor do que a mesa, e logo são arremessados para a cela solitária de suas saudades.
As crias não têm dó nem compaixão e retomam seus lares, rotinas e carreiras.
Minha mãe já me contou esta dura verdade: “a mais difícil das solteirices é voltar a ser solteira de filhos”.
A separação que mais dói não é a do casamento, mas a dos filhos. Porque o amor não termina. É um distanciamento gradual, com beijos e abraços e a promessa de continuar se vendo.
Não é uma ruptura ruidosa, com berros, litígio e ódio. Trata-se de uma passagem silenciosa, uma ponte noturna, feita de lágrimas engolidas e sorrisos constrangidos.
Abre-se a porta para nunca mais a vida ser como antes.
É fundamental se conter, pois você não prepara o filho para si mesmo, mas para o mundo. Não pode mais oferecer a mão, o colo, vigiar, proteger, acompanhar seus passos na retaguarda.
De uma hora para outra, você não é mais necessário. De uma hora para outra, você se torna coadjuvante.
Talvez seja a mais dolorida coragem do cuidador: deixar a pessoa que ele mais ama ir embora, deixá-la viajar para longe, deixá-la trabalhar e não dispor de tempo livre, deixá-la achar alguém e fazer sua família; deixá-la, enfim, perder-se ao acaso e se desabituar progressivamente a dizer onde está e com quem.
A casa será um cemitério da alegria, com quartos vagos convertidos em biblioteca, escritório ou ambiente de ginástica, numa improvisação afobada para ocupar terreno e disfarçar ausências.
O espaço lembrará o hall de um museu, com os bustos sem as pernas. Os telefonemas vão rarear, resplandecerá o brilho das tábuas do piso e o deserto das obrigações. Tudo tão limpo, e tão despovoado.
Não existirá o reconhecimento e a gratidão, trocos da cobrança e da censura.
A aposentadoria dos filhos é a mais penosa de se cumprir. O casal dependerá da valentia para mudar os assuntos, redimensionar a agenda, renascer em seus passatempos, virar-se para o interior do relacionamento.
É um recomeço avassalador, uma reeducação para aprender a ser mais egoísta e menos generoso (ser o primeiro a se servir, ser o primeiro a usar o toalete, ser o primeiro a dormir), empreendendo um esforço de autopreservação para não morrer pela pouca importância dada pela prole.
A despedida dos filhos devolve aos pais a liberdade das dúvidas. Acaba funcionando como um sacolejo, um alerta para que não se esqueçam de suas próprias realizações: “vivam os sonhos de vocês, não mais os nossos”.


