
Não tem como não se sentir minúsculo, um grão de areia, ao supor o tamanho do sofrimento do cão Orelha, mascote da Praia Brava (Florianópolis, SC), de 10 anos, espancado por adolescentes e encontrado agonizando numa mata no dia 15, sem chance de sobrevivência. Por causa da gravidade dos ferimentos, acabou submetido à eutanásia.
Um cão é esperança de vida em qualquer lugar.
Orelha se mostrava feliz, desfrutava de sua casinha a céu aberto, saltava para cumprimentar quem o chamasse pelo apelido, mantinha o pelo brilhante e viçoso, com as vacinas custeadas entre os moradores. Não era de ninguém, era de todos, de guarda comunitária, símbolo da hospitalidade do bairro.
Dócil e brincalhão, descendia do pedigree da afabilidade.
Eu imagino que ele pensou que aquela turma lhe daria carinho, que brincaria com ele, que ofereceria comida, que disputaria corridas, que soltaria um graveto no ar para ele se exibir e trazer de volta.
Não achou que se tratava de uma emboscada. Porque ele esperava o melhor das pessoas. Porque ele se deitava para receber cócegas. Porque ele rodopiava em torno de um afago no couro, de um contato de quem desejasse a sua presença, mesmo que por alguns minutos. Enrolava-se facilmente nas pernas, puxando um carrossel de faro e delicadeza.
Mas o bando maldito e cruel vinha do inferno. Mais do que vandalismo, parecia buscar sangue, divertir-se com o sangue de um inocente, praticando uma maldade desprovida de idade.
Os jovens ainda devem ter assobiado para que Orelha se aproximasse. Fingido entusiasmo. Dissimulado simpatia. Com risos falsos pregados no rosto. Para trair mortalmente sua lealdade.
Quando enfim ele chegou, inconsciente do que viria a acontecer, abanando o rabo, curioso e esperançoso, foi cercado, foi chutado, foi atingido por pauladas, em pura e insana covardia.
É de acreditar que Orelha ganiu por ajuda, vulnerável e frágil, idoso, sem condições de se defender, com mais língua do que dentes, com mais pelúcia nas patas do que garras. Nem assim contou com piedade.
Quantas crianças desapareceram dentro daquele cachorro? Quantos vizinhos e conhecidos o procuraram em vão em seu cantinho? Quantas ondas se fizeram apressadas no mar para lavar suas feridas? Quantos castelos e ilusões se desmancharam de repente pela violência do vento e das águas na orla?
A praia é pública, o coração é público, o assassinato é público.
Seu pungente latido não se cala. Seu latido é voz gritando.
Não duvido que os agressores tenham filmado as atrocidades para se gabar com os amigos (torturar um animal é engraçado?), não duvido que possuam cachorros em suas casas, não duvido que estudem em escolas caras, não duvido que pertençam a famílias influentes, não duvido que ostentem uma fachada de normalidade, não duvido que sejam enviados para longe e fujam de suas responsabilidades. Não duvido de coisa alguma, mas tudo dói.
A justiça não pode se ausentar.
Orelha não morreu porque confiou demais.
Morreu porque topou com gente que deixou de ser gente há muito tempo.



