
Abre alas, mundo jurássico: estou chegando.
Permaneço adepto da agenda física.
Sempre que confesso isso, meu interlocutor pergunta, repetindo as palavras por espanto:
— Agenda agenda?
Sim: agenda agenda.
Escolhê-la é um de meus momentos preferidos na livraria em janeiro. Enquanto pais e crianças procuram promoções de material escolar, eu ando na contramão dos corredores e me dedico a revirar as estantes para definir meu tipo ideal. Deve ser de tamanho médio, apresentar painel de atividades e organograma mês a mês. Não me apetecem datas espremidas ou divididas. Prefiro um dia por página, com espaço para comentários.
Faço uma triagem de cinco estilos para me decidir por um durante a adrenalina da boca do caixa. Há verões em que sou mais discreto, com capa monocromática e funcional; há outros em que sou mais espalhafatoso, com design colorido. Na edição de 2026, optei por uma clássica que tematiza A Noite Estrelada de Van Gogh.
Não prescindo desse ritual.
Meus pais, minha esposa e eu seguimos a tradição. Busquei convencer meus filhos a entrar para a seita encadernada, mas eles dispensaram o chamego: “papel, para quê?”.
Antes, eu nem precisava adquirir o produto. Empresas mandavam-no de brinde. Você inclusive o recebia da firma, como incentivo para caprichar no seu planejamento anual.
Desfrutei de uma época em que eu ganhava dez agendas de uma só vez, de cortesia, entre o Natal e o Réveillon. Hoje o hábito está beirando a extinção, não veio nenhuma até agora. Nem virá, pelo jeito.
Tampouco abdico dos calendários, que se transformam em cones em minha frente na hora de trabalhar.
Eu me sinto mais seguro no universo analógico.
Há uma explicação poética para o emprego do anuário: o tempo gosta de ser tocado, manuseado, folheado.
Existe também uma explicação científica: não confio na minha memória, muito menos idolatro o banco de dados digital — não é indefectível. Desenho uma nuvem para a nuvem.
Além do mais, anotar compromissos com a própria letra fixa a lembrança. Eu decoro com maior facilidade. Recordo o que escrevi.
Há ainda uma explicação prática: a agenda serve como pasta para guardar documentos e comprovantes. Não posso enfiar cartas, cartões e recibos no celular. Uma foto não tem a mesma graça e gera um labirinto de miniarquivos.
Em dezembro, minha agenda está gorda, com obesidade mórbida de tanto que vou acrescentando papeizinhos. Vira uma bagagem de mão.
Agrada-me a ideia de que eu herdo um diário. Preservo os tomos dos anos anteriores. Eles se completam, radiografando o meu crescimento, a minha formação, o fluxo da minha rotina.
É a minha autobiografia involuntária. Não ficam de fora nem os encontros cancelados, com o registro de tudo o que quase aconteceu.
Apenas a agenda mantém as nossas tentativas, as nossas intenções, o nosso esforço, a nossa vontade de viver.


