
Há um laboratório do mal acontecendo na fuça dos pais, em plataformas de jogos que permitem chats, filmagens e compartilhamento de arquivos.
Adolescentes são enfeitiçados por desafios. Desafios malignos. Quanto mais inconcebíveis, maior a projeção do protagonista.
É a fase da necessidade de provar valor e serem admitidos pelos grupos. Por gratuidade, motivos fúteis, rifam a sua segurança para acatar missões de automutilação, de nudez e de agressões.
Não se interessam em ouvir a voz de cima, mas apenas a de quem está ao lado, a de quem integra a mesma faixa etária e frequenta os mesmos lugares.
Ainda que saibam que são amados pela família, querem a cobiçada idolatria dos seus pares, custe o que custar: novatos buscando desesperadamente a inserção.
Confundem coragem com irresponsabilidade. Inibem a empatia e censuram o instinto protetivo diante da dor física – a sua e a do outro.
“Você não é capaz disso?” é uma provocação que adoece. Compromete a saúde emocional e anula para sempre, de modo irreparável, o futuro de alguém numa época decisiva de formação.
Ambientes digitais normalizam e – o mais grave – premiam a violência.
Não pode ser casualidade o aumento na incidência de maus-tratos a cachorros comunitários. Será que não vigora uma maldade orquestrada pelos esgotos da web? De repente, aparecem relatos de tortura absolutamente vil de animais inocentes, vulneráveis, que perambulam pelas ruas, ocasionando uma descrença radical na espécie humana.
Surgem detalhes de boçalidade que lembram rituais planejados, com encenações de sacrifício, poder e submissão nada espontâneas. São espancamentos que fazem Laranja Mecânica, filme de denúncia da minha geração, de Stanley Kubrick, parecer produto do jardim da infância.
Não temos noção da quantidade de jovens que tiram a própria vida por chantagem, constrangimento e ameaças desse universo paralelo.
Plataformas começam como nichos do mercado de games, e extrapolam a sua natureza original ao oportunizar a interação irrestrita dos mais distintos assuntos, numa selvageria que não guarda nenhum parentesco com liberdade. Abrem caminho para a disseminação, sem filtro, de pornografia e de mensagens racistas, homofóbicas, misóginas e neonazistas.
Alguns fóruns são criptografados, adotam linguagem cifrada, garantem anonimato, funcionam por câmaras de eco e se fecham em comunidades exclusivas. Todos os ingredientes operam como catalisadores da crueldade.
Participar deles vira status. Passam a ideia de que poucos aguentam a experiência, estimulando a ruptura das fronteiras da sanidade e criando uma elite das inconsequências no submundo dos bytes.
Aqueles que sofrem bullying ou acreditam carregar um defeito imperdoável tornam-se presas fáceis para a manipulação. Jogam no lixo os princípios e o caráter recebidos no lar pelos bitcoins da aceitação, da popularidade ilusória.
O celular é o mais inofensivo dos perigos. O que existe dentro do entretenimento tende a ser pior.





