
Foram um Oscar, três Globos de Ouro, duas distinções no Festival de Cannes e um Urso de Prata em Berlim para o cinema brasileiro em apenas um ano. Entre o verão de 2025 e o de 2026, recebemos mais prêmios do que em toda a nossa história cinematográfica pregressa, contemplando diversas nominações (ator, atriz, diretor e filmes).
O Agente Secreto, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, venceu na madrugada de segunda-feira (12), em Los Angeles, o Globo de Ouro nas categorias de melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama, com Wagner Moura. É a primeira vez que um ator brasileiro disputa e ganha na categoria, e que o Brasil sobe ao palco em duas oportunidades numa mesma cerimônia. Essa é a segunda edição consecutiva em que o Brasil leva um Globo de Ouro. No ano passado, Fernanda Torres saiu da premiação com o troféu de melhor atriz em filme de drama por sua performance em Ainda Estou Aqui, de Walter Salles.
Não se trata de uma fase, mas da culminância de uma estética bem nacional, um olhar especial, que não existe em nenhuma outra cultura. O Agente Secreto retrata a perseguição do regime militar e reconstitui perfeitamente Recife de 1977, a tal ponto que quem viveu o período volta no tempo pelo figurino de camisas estampadas com os botões abertos e calças boca de sino, e pelas fachadas de prédios e carros de época, mas com direito a incursões fantásticas envolvendo o anedotário popular sobre ataques de tubarões. Ninguém mais arriscaria tamanho hibridismo. É um molho que só nós temos, conciliando hiper-realismo com fantasia, sem que nada fique sobrando no enredo.
A repressão política contrasta com o carnaval de rua, em que máscaras e duplas identidades compõem uma caçada a um professor universitário que retorna do asilo por saudade e amor a seu filho.
Wagner Moura assume precocemente a cabeceira do panteão dos nossos artistas. Com 49 anos, já protagonizou 50 títulos na carreira.
O baiano conquistou o público da telenovela com Paraíso Tropical (2007), em que interpretou o icônico personagem Olavo, um vilão carismático e complexo que fazia par romântico, cheio de ginga e desaforos, com Camila Pitanga. Depois, nas telonas, passou a integrar o nosso imaginário com o capitão Nascimento em Tropa de Elite, um sucesso monstruoso de José Padilha, que gerou continuação e obteve a maior bilheteria do país, superando as marcas de R$ 100 milhões e de 11 milhões de espectadores. Depois arrebatou o quinhão do streaming com Narcos, adotando camaleonicamente a feição do imperador do narcotráfico, Pablo Escobar. Depois, pisou com os dois pés nas produções americanas, com Guerra Civil (2024), dividindo a cena com a badalada atriz Kirsten Dunst. Depois, de modo inédito, estrelou a série americana de drama policial Ladrões de Drogas (2025).
Ele é capaz de representar em espanhol e inglês com uma naturalidade nativa. Não houve espaço que não ocupou com seu talento, encarnando personalidades absolutamente antagônicas, de policial a traficante. Não seguiu uma receita, um padrão, muito menos foi chamado por empresas estrangeiras para uma ponta. Entrou na indústria extrapolando as expectativas de figuração dos latino-americanos.
Comprova as diferenças entre reconhecimento e fama. O reconhecimento é duradouro, fruto de longo e árduo trabalho. Já a fama é provisória, desprovida de fundo e lastro. Tanto que ele é uma celebridade que não possui redes sociais.
Dá gosto de ver sua alegria. Seu sorriso de mandacaru tipifica o esplendor original de nossa sétima arte. Nele, há o DNA de Othon Bastos, Paulo Autran, Jardel Filho, das atuações serenas, sem firulas.
Ao comemorar o Globo de Ouro nos Estados Unidos com o elenco, colocou a estatueta no centro de uma roda e se pôs a dançar e cantar, a pleno pulmões, a canção que se tornou clássica na voz de Alcione:
Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De samba para a gente sambar
Não duvido que, no calor da euforia, tenha mudado malandramente a letra:
Não deixe o cinema morrer
Não deixe o cinema acabar
O morro foi feito de cinema
De cinema para a gente filmar
Isso é Brasil.



