
Agora só faltava esta: temer uma terceira guerra mundial.
Perguntei para a mãe, que viu de tudo na vida.
Ela me respondeu:
— Passei quarenta e quatro anos, metade da minha idade, de 1947 a 1991, esperando o fim do mundo com a Guerra Fria. Já somos catedráticos em normalizar o medo.
Com tantas notícias ruins no início de 2026, cada vez mais me isolo na roça.
A roça é a fé em estado bruto.
Preciso dela para buscar mais de minha infância, quando o estoque da meninice está por um fio.
Lá, sou um outro homem, menos arrogante, menos sabido, com menos respostas e mais atenção ao simples.
É onde me abraço.
É tirar o leite da vaca, é pegar os ovos mornos do galinheiro, é o cheiro de palha e mato nebulizando as narinas.
A luz parece mais honesta, o tempo corre devagar, o som dos córregos parece mais cristalino, as conversas parecem mais autênticas, eu durmo melhor com a brisa sussurrante, desperto todo disposto pisando com o pé direito nas tábuas frouxas. Aliás, escuto a minha primeira pisada acordando a casa; os pregos saltam de felicidade com o meu peso.
Calço as botas, ponho o casaco e permito que a neblina molhe as minhas bainhas. Atravesso o horizonte azul, como se a pintura de Deus ainda estivesse com a tinta úmida. Cumpro as minhas expedições pelo campo, reconhecendo as árvores como irmãs mais velhas. Juro que vejo as acácias me cumprimentando, mexendo as suas cabeleiras crespas.
Não me assusto com os barulhos das portas batendo, das janelas fechando, como na cidade. Não tenho pavor do apocalipse, de assalto, de perigo, de alguém entrando sem licença.
Há uma única porteira e um cadeado solto. Os gritos e as palmas dos vizinhos são a campainha possível.
As estradas levantam a terra vermelha, os motoristas se orgulham dos carros sujos.
Faço o supermercado na minha horta, escolhendo os legumes e as verduras pela robustez da cor. Já aproveito para tentar salvar os produtos amassados, machucados pela corrida dos bichos.
O fogão a lenha nunca está extinto, como uma lua que não cansa nem com a claridade.
A comida tem o gosto do solo, tem o sotaque das raízes. Ela fala a mesma língua do meu paladar. É cozinhar que vem à memória uma viola caipira. Ao revolver os caldos, surgem dez cordas de aço na colher de pau. Uma música reboa de dentro, como um lamento saudoso.
A regra é não esfregar o fundo das panelas de ferro, lavá-las apenas com água, para não estragar o fundo ancestral da família, a alegria dos banquetes que foram feitos em seu bojo.
Preparo o almoço para não sobrar nada, porque o interior abre o apetite. Haverá depois a rede para ajeitar o excesso pelo balanço.
Eu me erguerei de novo da pestana só com o aroma do café. O grão torrado de café é a alma da tarde.
O vento está sempre a meu favor. Com sol, recebo o coral do bem-te-vi, do pássaro-preto e do sabiá. Com chuva, ganho uma orquestra de graça nas calhas e telhas.
Quem fica perto do seu chão jamais cai.
A existência é desinformada e plena. Minha esperança é juntar gravetos e cortar as achas de madeira para alcançar o fogo mais lindo e firme e aquecer os olhos dos filhos e da esposa. Isto me basta: arder alto de ternura.
Não sofro com o futuro, pois o presente sobeja de pouquinho a pouquinho. Como diz Guimarães Rosa, “felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

