
Quando foi a última vez que você consultou um dicionário?
Talvez na infância, em algum trabalho de escola.
O berçário da nossa curiosidade tornou-se um cemitério.
Valemo-nos do rápido Google, do imediato corretor ortográfico.
Se ambos permanecerem inacessíveis por um período, perceberemos a nossa dependência. Porque caminhamos com andador, e não mais com as próprias pernas.
Você não se depara com o que ainda precisa aprender, pois a falha é logo corrigida pela digitação automática. Se você não erra, não assimila nada.
Não exercitamos a memória, não cultivamos a caligrafia, não treinamos a nossa redação.
Se continuarmos assim, não compreenderemos boa parte da obra de Machado de Assis, de Cornélio Penna, de Graça Aranha, de Olavo Bilac. Os clássicos serão indecifráveis.
Os sinônimos, os arcaísmos, os regionalismos, os dialetalismos, até os neologismos semânticos sumirão do mapa de nossas sinapses.
Ninguém mais folheia os livros com nossos verbetes. O Aurélio, que já vendeu 15 milhões de exemplares, vai desaparecer. O Houaiss, que já vendeu mais de 150 mil exemplares, também vai desaparecer. O minidicionário gaúcho de Celso Pedro Luft vai desaparecer.
O prazer do dicionário é descobrir de onde a expressão surgiu. Conhecer suas acepções. Saber sua família. Ver um exemplo do bom uso de nossas letras.
Para Aurélio Buarque de Holanda, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa, acompanhada de "libélula" e "alvorada", é "murucututu", com cinco sílabas seguidas, todas terminadas com a vogal "u". O que lamento é que hoje poucos entenderão o que significa.
Na minha preferência, as duas palavras mais lindas da língua portuguesa são "saudade" e "cafuné". Abrem um oceano nos olhos. Salivo só de pronunciá-las. Dá gosto experimentá-las.
Representam gestos encaixados da nossa necessidade de demonstrar carinho.
Constituem o par perfeito da nossa oralidade.
Saudade é falta. Cafuné é presença.
Saudade é passado. Cafuné é presente.
Saudade transborda de lembranças na distância. Cafuné não deixa o tempo correr com a proximidade.
Saudade é acordar. Cafuné é adormecer e sonhar.
Saudade é legado, tudo o que ficou de alguém. Cafuné é a celebração do instante, o cuidado do colo.
Você não sente saudade de uma pessoa que não é importante para a sua alegria. Tampouco se permite entregar a cabeça e o coração a quem não inspira confiança.
Saudade pede cafuné, como goiabada pede queijo, como café pede bolo, como bife pede fritas.
São complementos do desejo e da benevolência.
Deveriam ser vizinhas, constar uma ao lado da outra na mesma página. Todos relevariam a exceção concedida por puro amor.
Elas poderiam se casar e ter filhos. Poderiam viver juntas, felizes para sempre.
Consigo imaginar a cena romântica: Saudade vestida de branco e Cafuné de terno escuro no altar enfeitado de magnólias, em cerimônia conduzida pelo Padre Antônio Vieira. Os padrinhos seriam Lya Luft e Celso Pedro Luft, Rachel de Queiroz e Aurélio Buarque de Holanda, Clarice Lispector e Antonio Houaiss.
Quero morrer de saudade de um cafuné.






