
Eu não me barbeio há mais de trinta anos.
Nunca mais tirei a barba. No máximo, ousei um cavanhaque por um breve período de crise de identidade. Bigode, sequer tentei.
Já me acostumei, já acho que nasci assim. Não consigo me ver diferente. Apenas aparo os pelos do pescoço e das bochechas e diminuo o tamanho dos fios grisalhos. Máquina serve para a poda, pequenos trabalhos de jardinagem, não para zerar o piso.
Jamais voltei a ter feição lisa angelical, de anjo torto na vida.
Dependeria de uma cirurgia ortognática, procedimento pesado que reposiciona os ossos da mandíbula, redefinindo a oclusão. Corrige “desequilíbrio esquelético” – expressão que dá medo. Não me julgo preparado para o desafio agora. Se fosse antes, quando jovem, acredito que enfrentaria. Melhoraria a minha mastigação, o meu sono, desfrutaria de paz para falar, com menor esforço.
Por hora, não me cabe alterar o meu perfil.
Senão vou me transformar em sósia de Noel Rosa – sou igualmente desprovido de queixo, mas sem o mesmo talento. O querido Noel, autor de composições célebres e cativantes como Conversa de Botequim e Com que roupa?, possuía um grave defeito no maxilar, resultado de seu parto complicado. Geralmente não comia em público. Evitava comidas sólidas, preferindo líquidos, pelo desencontro das arcadas dentárias e articulação insuficiente. Num duelo musical, Wilson Batista foi cruel com o amigo. Criou a letra Frankenstein da Vila, na qual destaca a aparência física de Noel:
“Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém
Que até parece um Frankenstein
Mas como diz o rifão: por uma cara feia perde-se um bom coração
Entre os feios és o primeiro da fila
Todos reconhecem lá na Vila”.
Talvez Noel tivesse sofrido menos bullying se integrasse meu time de barbudos.
Na escola, os colegas me consideravam semelhante ao Salsicha do Scooby-Doo. Viviam me irritando com “cadê você?”, bordão do desenho animado. Em seguida, apelidaram-me de Frangão, goleiro do gibi do Pelezinho, de Mauricio de Sousa.
Sinto inveja de quem ostenta um queixo quadrado, a exemplo dos atores Pedro Pascal e Hugh Jackman. Um visual marcante, que transmite força, estrutura, liderança.
Improvisei de acordo com minhas limitações. A barba veio como uma moldura, para reparar uma tela falhada. Arredonda minha cabeça. Disfarça o quanto sou triangular, um tengo-lengo.
Ela é meu tripé. Minha armadura. Meu capacete de boca. Minha peruca de rosto. Meu alicerce.
Fico estranho sem ela. A sensação é que meus traços vão deslizar com o suor, tornando-me ainda mais melancólico, acentuando os olhos caídos: um triste imberbe.
Não disponho de sobrancelhas, nem de cabelos. É uma compensação capilar.
Minha esposa me conheceu na versão felpuda. Meus filhos me conheceram unicamente com barba. Meus pais esqueceram minha diagramação anterior e juvenil.
Restam poucas fotografias do tempo analógico. Aquelas que sobraram, eu as escondo.
Existe muito homem como eu: condenado à barba. Não estou solitário na maldição.
Só farei a barba se o Inter ganhar o Mundial de novo. Prometo! Podem me cobrar.






