
Você faz uma selfie. Acha que está se fotografando, mas também registra a vegetação dançando, as folhas se retorcendo, os relâmpagos ao fundo como faróis altos de um carro.
Você parte do pressuposto de que está sozinho, mas fotografa também a chuva. Aparece reagindo aos ruídos de moedas caindo nas calhas, às pessoas pisando nas poças, ao desespero de todos por uma marquise.
Você também fotografa o vento mexendo em seus cabelos. Ou o vento arrepiando sua nuca.
O vento intervém na imagem. Ou você está a favor do vento, ou contra ele.
Você capta o vento.
Talvez o vento seja um menino se escondendo nas cortinas. Talvez seja um adolescente tentando pular cercas com uma perna de cada vez. Talvez seja um idoso andando de bengala.
Mas você não está sozinho. Há um vento com você, algum tipo de vento. Pode ser um vento usando os galhos das árvores para acenar ou dando carona para as nuvens.
Você, a chuva e o vento. Nunca estará sozinho, por mais que pense que está, por mais que pense que sempre é só você na selfie.
Você não vê a vida em seu entorno. Jura que só enquadrou sua cara. Não enxerga além.
Há a rua chamando. Há o que está ao redor, esperando que você aceite o convite para entrar na call de suas lembranças.
Você faz uma selfie. E não repara no que está sentindo. Mas a foto tem um perfume que modifica seu rosto, que inspira você a rememorar um perigo, uma alegria, uma coisa que esqueceu em casa.
Você faz uma selfie. E retém o cheiro do livro que está lendo. Ou o cheiro da conversa mais recente. Ou o cheiro dos lençóis. Ou o cheiro de um beijo.
O cheiro de seus pensamentos transforma seus olhos, sua postura, aproximando-o ou afastando-o da câmera.
É o cheiro em você, perto de você, que determina a distância das mãos.
Há uma fragrância forte que o influencia. Algo que acabou de acontecer.
Ou o cheiro de água sanitária das escadas.
Ou o cheiro da fumaça das panelas no fogão.
Ou o cheiro de papéis e de maçã na mochila que você recém abriu.
Ou o cheiro dos seus sapatos após amarrar os cadarços.
Ou o cheiro do elevador.
Ou o cheiro do cachorro depois de você se despedir dele.
Ou o cheiro de guardado do casaco que você pegou no cabide.
Ou o cheiro do palito de fósforo no momento de acender uma vela e mentalizar uma promessa.
Ou o cheiro das plantas na janela.
Ou o cheiro do café sorvido num único gole.
Ou o cheiro de uma bola de futebol que você devolveu para as crianças que brincavam na praça.
Você impregna a selfie de um cheiro. Não está sozinho. É o cheiro de um amor difícil que o põe triste. De uma grande ideia que o põe animado. De um amigo que o põe confiante.
Jamais somos o que julgamos observar.
Não é apenas uma fotografia de você, inclui o seu cheiro naquele instante. O que a sua alma andava decidindo naquele instante.
Um cheiro que acelera a sua ansiedade. Ou que traz paz.
Um cheiro de quem aguarda o Uber, o ônibus, uma notícia.
Talvez tenha o cheiro do medo de quem não se lembra do seu valor. Ou o cheiro de praia de quem desenha o seu nome na areia.
Talvez carregue o cheiro de um dia útil. Ou de um domingo.
Talvez esteja com o cheiro da sua chave. Ou da esperança de uma porta.
Você não vislumbra o cheiro, mas é o cheiro e você: o cheiro da chuva, do vento, do mundo misturados a você. O cheiro de estar vivo.
Nunca é só uma selfie.






