
Quando pequeno, o que eu mais queria era crescer. Odiava Peter Pan, com sua roupa verde de gafanhoto, voando por céus estrelados e chegando pelas janelas.
Meus soldadinhos de chumbo, no meu forte apache, travavam conflitos de verdade na minha imaginação, com rifles e machados, longe das tediosas guerras de travesseiro em que Wendy e seus manos pulavam na cama e soltavam penas para os lados no desenho da Disney. Não me apetecia a Terra do Nunca ou os poderes da fada Sininho.
Almejava ser real, com peso suficiente para abrir as portas automáticas das lojas.
Detestava ficar sentado na mesinha das crianças nos almoços de domingo. Entendia como um castigo. Buscava ser tratado como gente grande e me acomodar junto da família na távola redonda de oito lugares.
Ansiava por não mais dormir cedo, por permanecer acordado depois da meia-noite. Via-me torturado tendo que deitar às 21h, enquanto escutava as gargalhadas na sala. A sensação era a de que eu perdia o melhor da vida.
Sonhava em frequentar a matinê do cinema desacompanhado dos pais, para assistir a filmes com censura como Alien ou Tubarão, talvez convidando a menina de quem eu gostava. Então seguiríamos para tomar sorvete e um limparia o rosto do outro com guardanapo, e poderia acontecer um beijo pela súbita proximidade.
Sonhava em adquirir meu espaço, já que dividia o quarto com meus irmãos em beliches. Sonhava com meu armário, minha escrivaninha.
Sonhava em conseguir um emprego e fantasiava como eu gastaria meu primeiro salário.
Sonhava em ter um cartão de visita para entregar a um estranho, e um escritório com meu nome na entrada.
Festejei meu buço. Recordo, como se fosse ontem, o meu susto no espelho. Fingia que era bigode, deixando aquela sombra de pelo horrível acima da boca. Não me importava que fosse ralo, quase inexistente.
Não temia responsabilidades. Pelo contrário, eu me orgulhava de cada tarefa que recebia: por exemplo, ir sozinho ao mercado e trazer o troco certo.
Guardo com destaque o momento em que meu pai me chamou para o banco da frente do carro, dizendo que eu havia atingido a estatura adequada (medíamos diariamente minha altura com traços na parede da cozinha).
Não escondi o contentamento, a altivez. Aquilo foi uma promoção, mais um passo no meu ritual de maturidade. Tentei não rir, pois amadurecer implicava seriedade, concentração, foco.
Comecei a trabalhar ainda adolescente, durante os estudos. Mantinha meus dois turnos sobrecarregados, a ponto de sempre cochilar no ônibus, correndo o risco de não avistar a parada e acabar na estação final.
Minha aspiração se resumia a não depender de favores, fazer meu rancho, datilografar com todos os dedos, casar, alcançar a casa própria.
Objetivos fora da minha faixa etária me guiavam. Eu acelerava mentalmente o tempo para logo dirigir, cozinhar, escolher meu figurino e meus tênis, controlar meu dinheirinho.
Hoje parece que todo mundo deseja ser criança. Ninguém mais pretende ser adulto.
Será que não estamos formando gerações mimadas, desocupadas, sem desafios, confortáveis em suas bolhas, isoladas em seus celulares?


