
O que desejo para a virada é menos grupos de WhatsApp e mais contato individualizado. Que a gente consiga enxugar a lista de nomes para um círculo realmente presente e constante.
Ter só os amigos de fé, leais e acessíveis. Interagir para se encontrar, interagir para se conhecer melhor, interagir para aprofundar o vínculo.
Despedir-se dos afetos superficiais, virtuais e efêmeros, que enchem o calendário e não produzem intimidade.
Existe uma grande dificuldade para conversar com uma pessoa reservadamente. Para entender o que o amigo está pensando ou enfrentando. Para cultivar proximidade com quem importa, com quem sente a nossa falta.
Não há como arranjar tempo para todos. Amizade é escolha.
Uma das manifestações do desaprendizado do diálogo é a epidemia dos grupos de mensagens. Criam-se coletivos para qualquer iniciativa, especialmente para eventos fugazes, que logo caducam.
Trata-se de um excesso que suga energia, atenção e sanidade, agravando o estresse.
Quantos grupos você abriu na última semana somente para o Natal? Para o Ano-Novo?
Formamos um exército de mortos-vivos. Protagonizamos a série Lost dentro do celular.
Você vai tomar café com colegas e alguém inventa um trio para descrever a chegada ao local. Só para não precisar avisar dois amigos em privado sobre um atraso. É preguiça de repetir uma frase.
No emprego, diante de uma nova demanda, o primeiro gesto é fundar um grupo para distribuir tarefas. Ainda que os envolvidos estejam ao lado, dividindo baias vizinhas.
Confundimos o WhatsApp com uma agenda, acumulando fantasmas.
A convocação não é imprescindível, porém banalizamos as urgências.
A ânsia pelo registro é um dos males do âmbito corporativo que se espalharam pelos laços pessoais. Para os atos mais triviais da convivência, a procrastinação prolifera.
Previne-se a desmemória com a marcação simultânea. Só que a pressa vem matando a delicadeza.
O grupo não vai durar nem 24 horas. É um entra e sai interminável de telefones na sua rede.
Qual a lógica de compor um quarteto no WhatsApp? Nenhuma. É o uso indevido de uma ferramenta apenas porque está disponível.
Não queremos nos incomodar e incomodamos muito mais os nossos parceiros de rotina. Vale aquela brincadeira: um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais. Somos elefantes na existência digital dos outros. Cada vez mais elefantes e menos elegantes. Cada vez mais ocupando espaço e perdendo cumplicidade.
A segmentação enlouqueceu as caixinhas de bate-papo. Surge o grupo da família e, no encalço, aparecem minigrupos derivados: dos irmãos, dos irmãos com os pais, dos avós com os netos, dos primos, dos primos com os tios. Basta balançar a árvore genealógica e caem sempre os mesmos vídeos e memes. Não se percebe a ausência de originalidade na transferência de dados: copiar e colar virou reflexo, um encaminhamento automático de conteúdo engraçadinho. Quantas vezes você recebe a mesma imagem, no mesmo dia, de fontes diferentes?
No cotidiano atribulado, fingimos que trocamos ideias com o mundo inteiro e não falamos genuinamente com mais ninguém.
Tudo se transforma em passeata e comício sem sair de casa. Resta a fachada das mensagens empilhadas e não lidas, como se fôssemos relevantes ou famosos pela quantidade de panelinhas no perfil.
Fomentamos a praga das rodinhas: da academia, do futebol, da escola dos filhos, da política, do condomínio, do bairro. São canais infinitos de uma televisão de emojis e notícias virais, sem resquício algum de personalização.
O WhatsApp tornou-se um museu de bonecos de cera em tamanho natural. Enquanto isso, o amigo de verdade pode estar adoecendo de solidão.




