
Sou analógico, um animal pré-histórico da oralidade: ainda faço telefonemas. Pratico ligações demoradas. Gosto de conversar à toa, como se o tempo fosse sempre a minha escolha, não uma imposição.
Invento os meus recreios, as minhas pausas, o meu cafezinho, e renovo o meu círculo de afetos querendo descobrir como estão, o que andam pensando, executando, projetando, lendo, assistindo. A banalidade me encanta.
Meus textos saem dessa pescaria de palavras e experiências. Alguém me lembra de uma fase, de um momento, ou registra uma mudança de hábito e desperta em mim o formigamento da escrita.
Já fui de uma época em que se media a alegria pela conta telefônica. Se eu estava feliz, falava mais. Se estava triste, falava pouco. Gastava a lábia e a renda do mês no meu processo criativo, na minha terapia cordial.
Com os planos fixos e a consolidação da gratuidade do WhatsApp, sacrifiquei a régua. Não tenho mais o referencial de meus períodos de euforia, próprios do brilho da pérola ou dos mergulhos melancólicos para dentro do anonimato e da quietude da ostra. Economizei dinheiro e extraviei minha fatura emocional.
Mas posso ver o estado de minhas relações pela quantidade de chamadas perdidas até obter um retorno.
Só minha esposa, meu pai e minha mãe me atendem de primeira. São os únicos. A minha santíssima trindade: mãe, pai e o espírito santo que é a minha esposa. Ela é fluente em todas as minhas línguas e me acompanha em todos os lugares. Devemos nos corresponder, sem exagero, quinze vezes até o anoitecer, em especial quando nos encontramos cada qual em seu trabalho. Acontece uma novidade e já teclo para ela. Acontece uma fofoca e não consigo guardar. Durante a reforma do nosso apartamento — ajustes e orçamentos avaliados a qualquer instante —, nosso contato dobrou de intensidade.
Com os amigos mais próximos, costuma ser uma chamada não atendida de minha parte para que decidam me ligar.
Com os amigos inconstantes, a média é de duas chamadas não atendidas para que eu receba uma de volta. Costumam recorrer a desculpas: “não vi a ligação”, “o aparelho estava no silencioso”.
Com os conhecidos, são três chamadas não atendidas em dias diferentes para que eu ganhe alguma reciprocidade.
Já com os filhos, são cinco chamadas não atendidas e o vácuo eterno. Quem é nativo da geração digital simplesmente não atende o telefone — pergunta o que era por áudio na semana seguinte.
Se procuro por pura saudade, pelo enlevo das cenas vividas lado a lado, para confidenciar uma notícia de última hora ou mesmo por arroubos amorosos, fica até sem graça responder o que era. Não existe um assunto específico, concreto, real, uma motivação para monopolizar a atenção e justificar meus excessivos toques.
O telefone é tudo — funciona como relógio, como máquina fotográfica, como despertador, como laptop, como controle cardíaco e de pressão, como televisão —, menos telefone.
Se você estiver morrendo, dou um conselho: não peça socorro para os filhos adolescentes. É rir para não chorar.






