
— Ninguém está olhando.
Foi assim que minha mãe me ensinou a escrever em casa, aos 6 anos, depois que recebi um diagnóstico de retardo mental. A escola já tinha jogado a toalha para a minha alfabetização.
Éramos ela e eu, formávamos uma ilha nessa tarefa. Ela tirou licença do trabalho para me atender nos dois turnos. Acreditava tranquilamente no meu talento, eu percebia pelos seus olhos doces e amendoados sobre as folhas.
— Não tenha pressa, ninguém está olhando, siga seu instinto — ela me orientava.
A mãe aliviou os meus ombros da pressão, da competição da turma, do medo de não corresponder às expectativas.
Ela contava com a certeza do meu potencial, antevia que apenas aconteceria com um ritmo e estímulos diferentes do padrão.
Eu errava na sala de aula não porque não compreendia, mas porque me desesperava com as respostas dos outros — rápidas e automáticas. A facilidade dos colegas se transformava na minha dificuldade.
Durante dois meses, a figura materna criou jogos educativos para me dar prazer na hora de decifrar as sílabas. A alegria da descoberta não deveria ser imposta ou invasiva. Não poderia ser abolida pela obrigação de saber.
Se eu rastejava, de repente passei a voar. Fui do inferno ao céu sem escalas. Nem engatinhei, nem andei, tamanha a absorção do processo pedagógico. Engolia alturas de parágrafo em parágrafo.
Em vez de soletrar ou gaguejar, comecei a ler de um golpe, num único fôlego. A mãe se espantou com o meu clique. É como se ela tivesse apertado um botão dentro de mim, ajudando-me a emergir devoto da língua portuguesa.
Para quem estava fadado ao analfabetismo por limitações cerebrais, ter se tornado escritor é, mais do que uma ironia do destino, o capricho do propósito, a prova maior de nossa capacidade de superação.
Não nascemos nos amando. É alguém que nos serve de espelho. É alguém que nos inspira a nos amar. Para nascer o amor-próprio, basta que uma só pessoa confie em nós.
Por mais que eu me ame, nunca chegarei aos pés do amor que minha mãe sente por mim.
Como nada é por acaso na vida, neste sábado (8), às 19h, autografarei minha nova obra Deixe Ir na Feira do Livro de Porto Alegre.
Quem estará ao meu lado? Minha mãe. Maria Carpi.
Os leitores costumam recorrer a ela para entender minha caligrafia. Faz muito sentido. Minha letra surgiu da inabalável fé que ela nutria. Minha letra são seus cílios que caíram no nosso tempo de aprendizagem.
Na Praça da Alfândega, numa mesinha do pavilhão central, entre dezenas de autores, mãe e filho dividirão o ventre das palavras. Eu, maduro e grato; ela, com 86 anos, orgulhosa de meu caminho; ambos prontos, depois de tudo, para chorar por qualquer carinho que vier.




