
Tudo o que não acontece é proteção.
Tudo o que não acontece é dádiva sobrenatural.
Porto Alegre teve uma semana beata: produziu dois milagres. Duas tragédias que não se consumaram, de modo inexplicavelmente feliz.
Quem viu como ficou o veículo da estudante de biomedicina Eduarda Corrêa, 23 anos, prensada por um caminhão no acesso da Freeway para a Rodovia do Parque, não tem como crer que ela escapou ilesa. Não existia mais nada, só uma lataria completamente amassada, esmagada.
A jovem permaneceu por duas horas soterrada pela serragem e foi resgatada pelo Corpo de Bombeiros somente com arranhões aparentes. Um prodígio do extraordinário no fim da manhã de terça-feira (7).
Ela está com casamento marcado para o dia 1º de novembro. Poderia ter deixado um noivo precocemente viúvo, seu par chorando no altar do velório, mas o amor entre os dois teve a graça blindada do anjo da guarda.
Segundo relatos do resgate, no espaço onde ela estava se formou um vão, uma bolha, uma cápsula onde ela se manteve segura. Conseguiu respirar até se desvencilhar dos escombros.
É igualmente surpreendente o acidente com um ônibus de turismo que levava 55 estudantes, entre 15 e 17 anos, em excursão que saiu de Vacaria rumo ao Palácio Piratini, na tarde de sexta-feira (3).
Sem freios, o coletivo atingiu cabos no início da ladeira da rua Espírito Santo, arrastou carros estacionados, um contêiner e o que mais encontrou pela frente, num strike do apocalipse no Centro Histórico. O fogo se alastrou rapidamente, em segundos, desembocando em explosão.
As filmagens são assustadoras. Tampouco alguém imaginaria que não resultaria em vítimas fatais. Apesar da magnitude dos fatos, não houve ninguém gravemente ferido.
Dos rastros de destruição, era possível observar os bancos consumidos pelas labaredas, restando apenas estruturas metálicas retorcidas, com o revestimento interno absolutamente carbonizado, o corredor repleto de fuligem, e as laterais deformadas pelo calor. Tratava-se de uma estufa inóspita e asfixiante.
A evacuação instantânea do grupo escolar, no momento do choque, nem se tivesse sido ensaiada exaustivamente, seria tão perfeita e sincrônica. Os professores e instrutores se mostraram valentes heróis, atuando coletivamente, usando extintores para atrasar as chamas, pedindo que todos cobrissem a boca com a camisa para evitar a fumaça, e guiando ordenadamente a turma para o lado de fora. A solidariedade dos circunstantes, porteiros e pedestres garantiu um recorde ao cordão de isolamento.
Um dos sobreviventes chegou a dizer: “é caso de botar o joelho no chão e agradecer”.
Costumamos lamentar as desgraças, e nos esquecemos de comemorar os salvamentos invisíveis.
A capital gaúcha experimentou dias de santo, de canonização cotidiana, de imunidade perante iminentes e previsíveis catástrofes.
As vidas resguardadas serão vidas multiplicadas pela nova chance, pelo renascimento. Com certeza, o destino reserva uma missão para essas existências poupadas, a começar pelo testemunho da fé.




