
Uma cidade gaúcha ofereceu uma lição de civilidade: Morro Reuter, na Serra Gaúcha, com 7 mil habitantes, a cerca de 60km de Porto Alegre.
Situada no sopé do morro, a 492 metros de altitude, com sua paisagem tingida de lilás pela predominância da lavanda, mostrou-se ainda mais elevada e florida pela atitude de sua população.
Um restaurante familiar de comida alemã sofreu um apagão na hora do almoço de domingo (5). Estava lotado, no pico de afluência mais festejado da semana. Não havia como efetuar pagamentos via Pix ou cartão de crédito.
Já que a energia não se estabilizou durante o expediente, a alternativa dolorosa que restou aos proprietários foi liberar os 104 clientes sem receber um centavo pelo rodízio. O prejuízo chegaria a R$ 12 mil, comprometendo o orçamento do mês.
Só que um movimento espontâneo e comovente se desenrolou dentro da consciência de cada um dos frequentadores. Nenhum deles usou da malandragem e do jeitinho para contar vantagem ou se vangloriar da gratuidade forçada, à custa do sacrifício alheio. Nenhum deles fugiu de sua obrigação.
Todos voltaram para pagar a fatura pendente. Todas as 104 pessoas — sendo que metade quitou a quantia antes do anoitecer. Todas assumiram a responsabilidade pelos próprios gastos.
O alinhamento moral não surpreende quem conhece o espírito do lugar. Era uma reação previsível no município que é considerado o mais leitor do Rio Grande do Sul; que tem um obelisco dedicado aos livros em seu pórtico; que criou um muro semelhante a uma estante, com 63 lombadas gigantes de clássicos da literatura distribuídas em 15 metros; e que conquistou o Selo Ouro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, do MEC, láurea que atesta o trabalho das melhores secretarias de Educação do Brasil.
No ano passado, o índice de alfabetização na localidade alcançou 76,9%, enquanto a média do Estado ficou em 44,7%, e a do país, em 59,2%.
O investimento na base educacional sempre retorna para a sociedade inteira. Não existe como inverter a ordem dessa fórmula de sucesso, buscando colher para plantar. A segurança nasce da prosperidade do ensino. O que é firmado desde cedo, perdura.
Tanto que o dono do restaurante não entrou em pânico com o repentino fiado, com a debandada “grátis” naquele fim de semana.
Ele dizia confiar nos seus conterrâneos. A porta se manteve aberta, para sair e para regressar.
Isso explica alguns índices zerados de violência. Morro Reuter não registrou roubo em 2024, de acordo com a Brigada Militar. Se alguém esquecer um pertence num banco da praça, o objeto estará lá no dia seguinte.
A honestidade é o maior desconto que se pode obter no IPTU. Trata-se de uma paz inegociável: a tranquilidade junto aos vizinhos.



