
Luis Fernando Verissimo partiu na manhãzinha de sábado (30). Por décadas, até se aposentar em 2021, ocupou o posto de meu colunista predileto, minha página obrigatória no jornal.
Comecei em ZH sendo seu interino no caderno Donna, num batismo de lava mais do que de fogo.
Enfrentei quatro domingos de suplência suando frio. Só tinha uma missão: que os leitores sofressem de saudade dele e protestassem para que voltasse o quanto antes das férias. Meu fracasso seria o meu sucesso.
Desde o princípio de sua carreira, em 1966, mostrou-se insubstituível, capaz de arrancar pétalas dos assuntos mais espinhosos.
Era um homem de paradoxos prodigiosos. Culto, mas simples e coloquial na linguagem. Falava pouco, mas escrevia muito. Evitava palestras, mas não largava o palco com seu saxofone.
Foi o bairrista mais cosmopolita. Não tomava chimarrão, não montava a cavalo (a única vez que tentou, disse que o cavalo não gostou), não fazia churrasco, não participava de piquete — mas é um dos responsáveis pela popularidade de Porto Alegre. Cantou sua cidade como ninguém, dentro e fora de suas obras.
Ia além da aparência. Se não usava bombacha, carregava o nosso espírito zombeteiro, o nosso chiste, a nossa implicância, sem solenidade alguma, com bravatas como “O mundo não é ruim, só está mal frequentado” ou “Conhece-te a ti mesmo, mas não fique íntimo”.
Fixaria residência em qualquer lugar. Visitou tudo que é país, morou em Los Angeles, em Washington e no Rio de Janeiro, porém optou pelo casarão branco de azulejos portugueses — na rua Felipe de Oliveira, no bairro Petrópolis — que pertenceu ao seu pai, Erico Verissimo.
A morada se transformou num ponto turístico informal, com procissão de curiosos querendo observar o local de inspiração e das musas dos famosos escritores. Pelo seu portão passaram Sérgio Buarque de Holanda, Clarice Lispector, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Fernanda Montenegro, Josué Guimarães, Tônia Carrero, Eva Wilma, Ulysses Guimarães e dezenas de artistas e intelectuais.
Verissimo chegou a considerar Porto Alegre como uma das metrópoles imprescindíveis para se aventurar, ao lado de Paris, Roma e Nova Iorque, na série Traçando, feita em dueto com Joaquim Fonseca.
Descreveu sua capital preferida como uma mulher de fases e de estações:
— Faceira quando se veste com as flores do jacarandá anunciando a primavera, e manhosa ao se derreter nos dias tórridos de verão. Malvada, venta fria e cinzenta nas noites de inverno.
Radar das contradições dos relacionamentos — destrinchadas em Comédias da Vida Privada —, provou que não precisava viver o inferno no amor para descobrir o paraíso. Acertou de primeira. Casou-se com a sua “primeira namorada séria”, Lúcia, e permaneceram juntos por 61 anos, deixando o legado de três filhos (Fernanda, Mariana e Pedro) e dois netos (Lucinda e Davi).
Ele afirmava que as melhores coisas que existiam eram neto, pudim de laranja e gol do Internacional. Não por acaso, relacionadas à infância.
Nunca parou de torcer como um menino:
“Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol”.
Já viajei com ele em silêncio para encontros literários, num misto de nervosismo e reverência. Redigiu o prefácio de um de meus livros, e nunca consegui agradecer como ele merecia.
Nosso diálogo mais longo aconteceu no Museu Iberê Camargo, depois de uma exposição, à beira do Guaíba:
— Dia lindo, céu azul. Tivemos sorte! — puxei conversa.
Ele problematizou de modo lacônico:
— Em parte.
— Vai chover? — perguntei.
Pensou, pensou e constatou:
— Não. O céu é gremista durante o dia, mas o entardecer é colorado.
— É sempre Gre-Nal por aqui — arrematei.
Ele meneou a cabeça concordando:
— Sempre será.
Verissimo não poderia ter sido mais gaúcho.






