
Quando você perde pai ou mãe, seus alicerces da vida, tem apenas dois dias de licença conforme a CLT. Se é servidor público, dispõe de oito dias; professor, nove dias. Sempre consecutivos, mesmo que o óbito caia no final de semana.
Trata-se de uma esmola humilhante.
A lei não sente saudade. É fria e indiferente, incapaz de discernir entre uma cadeira e uma cova. Por isso é tão fora da realidade do extremo pesar.
Ela evidencia uma completa carência de compreensão e reconhecimento do processo do luto, numa mecanização do descarte e da insensibilidade. Como se fôssemos objetos defeituosos saindo de circulação para não atrapalhar o funcionamento da sociedade.
Exclusivamente da parte burocrática encarregam-se as pausas oficiais.
Na primeira fase, é preciso escolher o plano do enterro ou cremação, o local do velório, providenciar o translado do corpo, definir as roupas do ente querido entre as que usava com frequência, optar por uma fotografia preferida para o anúncio entre centenas de sua galeria de imagens, quebrar a cabeça para sintetizar uma biografia para a frase da homenagem e para a lápide, convidar familiares e amigos, chamar entidade religiosa, dar conta de telefonar para os mais próximos, juntar os documentos do afeto e tirar o atestado de óbito no cartório.
Na segunda fase, cumpre notificar o trabalho do falecido, suas agências bancárias, elaborar o inventário, conferir dívidas e empréstimos, suspender contas, organizar os bens, desocupar o imóvel.
Mergulha-se numa romaria infindável de detalhes e busca de informações que não concede espaço para sofrer. Não se encontra brecha para chorar. É só responsabilidade. É só execução de tarefas. São só encargos da despedida.
Não há como prantear ou se isolar no quarto para se deixar levar pelo desamparo e tristeza.
O que qualquer um mais gostaria se reduz ao travesseiro e ao escuro das cortinas. A solidão saudável das lágrimas, no entanto, acaba sendo vetada pela correria de resolver as pendências legais. Você tem que receber a todos ao som cortante dos pêsames. Tem que sair para a rua e se comunicar com o povo do cartório, da funerária, do serviço público, respondendo “bom dia” e “boa tarde” como se nada de importante tivesse ocorrido.
Você não desfruta de tempo para se desapegar, para se distanciar, para acusar o golpe do “nunca mais” de quem era sua referência geográfica e sentimental no mundo, seu ventre e seu colo, seu início e seu porto.
Não consegue nem raciocinar e acreditar naquilo que aconteceu. O ceticismo se apodera de sua rotina. Jura que foi um mal-entendido, um pesadelo, que acordará e a família estará novamente à mesa do pão e do café.
Arranca-se o coração para que ele não bata, não faça alarde, não se demore, não produza estrépitos da ausência.
Morre quem você ama, e você não deve incomodar, e logo se vê obrigado a retomar o ofício, a cumprimentar os colegas, a ser simpático e atencioso, a participar de reuniões, a expor o rosto afundado nos traços genéticos dos seus fundadores.
Os enlutados adoecem porque são invisíveis, forçados a adiar sua aflição, abortados da espontaneidade do grito e da catarse, constrangidos a tapar suas feridas com as mãos e empurrados a seguir caminhando.
No momento de nossa maior humanidade, a finitude de um amor, o desencanto irreversível de não mais beijar, abraçar e conversar com alguém tão imprescindível e presente até ontem, exigem-nos a habilidade monstruosa de ser desumanos.
O luto jamais termina. Mas bem que ele poderia ter o direito de começar.




