
Era só o que faltava.
O romance anda tão raro, tão escasso com o excesso de atribulações profissionais, e tem gente que ainda quer proibi-lo. Merecia bonificações, não punição.
Na semana passada, um condomínio no bairro Kobrasol, em São José, a quarta maior cidade de Santa Catarina, aprovou uma regra que limita a realização de relações sexuais até as 22h.
A medida impopular, que extrapola a razoabilidade do convívio, foi tomada após uma série de dezoito reclamações de moradores sobre ruídos espalhafatosos durante a madrugada e publicada em ata numa assembleia.
É o toque de recolher do amor. É o silêncio da abstinência. Nada de namorar depois da novela. Nada de gemidos.
Quem contrariar a norma terá que arcar com multa de R$ 237.
A censura não se refere a obras e construções — cujo horário segue o padrão das 8h às 17h de segunda a sexta, e até o meio-dia nos sábados —, tampouco a brigas e discussões, com alguém em risco, ou mesmo à ordem e ao recato nas áreas comuns do prédio. Estranhamente, busca interferir nas atividades privativas dos casais, na alegria caseira, na liberdade que acontece secretamente dentro do apartamento, entre quatro paredes.
Significa invadir a privacidade e demonstra uma vontade insana de controlar e moralizar a subjetividade da vida alheia. Fere, inclusive, o princípio bíblico da procriação.
Se a pessoa experimenta uma crise alérgica de espirros, ou se encontra gripada, com tosse intermitente, também será vetada de adoecer?
O que fazer com os gatos no cio nos telhados?
A convivência deve primar pelo tom pacífico, mas jamais ceder terreno para o ciúme. Pois parece um caso de extrema inveja, de dor de cotovelo.
Imagine sofrer represálias por renovar os votos do casamento. Desejo a fama dessas advertências.
Eu me vejo contando as façanhas para os amigos:
— Só nos últimos dias, já fui multado cinco vezes.
De réu do edifício, ganharei o troféu de rei da monogamia.
Não duvido que abram uma gincana de infrações, descobrindo a frequência de cada um dos residentes.
Gostaria de entender como funcionará a restrição: o síndico será chamado para bater na porta do casal feliz e interromper o bem-bom?
Saudade do tempo, muito mais divertido e inofensivo, em que se cutucava o teto com a vassoura.
Lembro que vivi um incidente com um vizinho, que morava no andar de baixo, em meu apartamento em Porto Alegre.
Ele apertou a campainha, de modo constrangido. Pela sua visita inesperada, cogitei que fosse a mangueira do ar-condicionado ou alguma infiltração no banheiro. Cheguei a procurar mentalmente o nome do hidráulico.
Mas ele falou baixinho, sem jeito:
— Vim pedir, se possível, para a sua esposa maneirar no salto de madrugada. Não consigo dormir ouvindo suas caminhadas de um lado para o outro.
Eu pensei, pensei e apenas respondi:
— Desculpe estragar a sua fantasia. Quem usa salto sou eu.
Eu tinha um sapato argentino para aprender a dançar tango.
Nem tudo é samba.






