
Vamos perdendo o poder de encantamento.
Hoje shopping é banal. Uma repetição de corredores, vitrines idênticas, climatização padronizada. Tanto faz estar em Porto Alegre, São Paulo ou Curitiba. A experiência se homogeneizou: o mesmo cheiro de pipoca com aromatizante das grifes, as mesmas lojas com manequins macambúzios.
Mas lembro que, quando eu tinha 11 anos, Porto Alegre inaugurou o seu primeiro grande empreendimento: o Iguatemi. Era 1983, e parecia que a capital ganhava um passaporte para o futuro.
Frequentávamos o Centro Comercial João Pessoa e as galerias do centro. Não dava nem para imaginar um lugar com 110 lojas, distribuídas em dois andares, praça de alimentação, cinemas.
Shopping significava Blade Runner: o caçador de androides, filme que estava em cartaz na época com o jovem Harrison Ford, projetando como seria 2019.
Entrávamos na ficção científica das megalópoles, atravessávamos um portal para Nova Iorque.
Não contávamos sequer com McDonald’s na cidade — a franquia surgiu em 1989. Da rede de fast-food conhecíamos apenas o jingle do famoso Big Mac, aquela música acelerada que desafiava a língua para listar os ingredientes do sanduíche:
— Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim.
No primeiro sábado de funcionamento, o Iguatemi recebeu 150 mil pessoas — dez por cento da população. Um êxodo urbano de curiosidade. O turismo suplantou as compras. Famílias inteiras se preparavam como quem comparecia ao teatro ou ao circo: as mães de salto, os pais de terno, os filhos de cabelos repartidos para o lado.
Estreávamos num shopping com requintes de espetáculo.
Jamais tinha testemunhado na vida tamanha profusão de escadas rolantes. Subia por uma e descia por outra até cansar. Na minha infância, o mais perto que cheguei da Disney.
A maior atração se concentrava no hall principal: o relógio d’água, um mecanismo hipnótico, com réplicas em Berlim, Osaka e Paris. Ficávamos nos bancos de madeira admirando a obra do físico e artista francês Bernard Gitton.
Uma estrutura de 8,5 metros, com 250 litros de fluido verde circulando por 120 metros de tubos de vidro. Os globos enchiam-se e esvaziavam-se como uma ampulheta líquida, marcando minutos e horas.
Um pouco de ciência, um pouco de arte, e muito de magia para meus olhos infantis assombrados.
Durante décadas, a clepsidra correspondia ao nosso Cristo Redentor, nosso segundo Laçador. Não constava em nenhum cartão-postal, porém se destacava como um obelisco tecnológico na memória coletiva.
Tornou-se uma das gírias dos porto-alegrenses: “vamos ver o relógio”.
Atualmente, milhares de pessoas passam diante dele sem se deter, sem nem prestar atenção. De meca de reverência, virou mero ponto de referência para localizar algum estabelecimento.
O relógio, que já foi motivo de orgulho e lágrimas de emoção, símbolo de status, passeio garantido, excursão de escola, altar de noivados, reduziu-se a uma goteira do tempo, da pressa e da indiferença.
Não é a representação do ostracismo de pérola que longos casamentos experimentam? Em que o casal se embota no escudo da ostra e não percebe o que tem dentro?
Pela força do hábito, esquece o valor da cumplicidade, a preciosidade da companhia, o quanto é raro encontrar um amor, alguém para admirar e ser admirado.
O relógio nunca parou, o brilho continua ali. Somos nós que talvez tenhamos nos acostumado aos seus reflexos esverdeados como se fossem para sempre.
A beleza morre justamente porque pensamos que ela é eterna.





