
Eu lembro que, na minha infância e adolescência, já deixei de ter aula por greve de professores, por chuvas fortes, por falecimento de presidente (Tancredo Neves). Agora, vejo que existe um novo expediente: ameaça de ataque à escola.
Não há como contestar a prudência da Prefeitura de Novo Hamburgo, que suspendeu o calendário escolar da rede municipal na sexta-feira (8) e na segunda-feira (11). A prevenção é obrigatória. Não se brinca com o bem-estar dos estudantes. Não se espera para descobrir que não era boato. Ainda que seja um trote, não há como correr riscos e assumir as consequências. Blefes são letais.
Testemunhamos recentemente dois atentados traumáticos consecutivos em Caxias do Sul e Estação.
Na Serra, no início de abril, uma professora de inglês foi esfaqueada por um trio de alunos dentro da sala do 7º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) João de Zorzi, em Caxias
No Norte do Estado, no começo de julho, um menino de 9 anos foi assassinado com onze facadas na Escola Municipal Maria Nascimento Giacomazzi, em Estação. O agressor, de 16 anos, também feriu duas meninas, ambas de 8 anos, e uma professora de 34 anos.
Há antecedentes de extrema violência. Vivemos uma nefasta época de receio de chacinas, de audiência da morte, de endeusamento de psicopatas, de replicação de sósias das matanças estudantis dos Estados Unidos, de imitação de vestimentas de atiradores de Columbine e Suzano (camisetas, calças, luvas e botas pretas).
O mundo está virado pelo avesso. Basta perceber o quanto criminosos ganham cartas de fãs e pedidos de casamento durante o confinamento. Como explicar que o Maníaco do Parque, responsável por onze assassinatos e condenado por sete, além de diversos estupros — um dos casos mais perturbadores da criminologia brasileira —, seja o recordista no recebimento de correspondência dentro do sistema prisional e, surpreendentemente, tenha chegado a se casar com uma admiradora enquanto estava na prisão?
Quem pode querer firmar compromisso amoroso com alguém que atraía jovens prometendo trabalhos como modelo de fotografia, levava as moças crédulas a locais isolados no parque, amarrava, amordaçava, estuprava e depois as estrangulava?
É preferível que os pais sintam medo a que se despeçam de um filho no caixão
O fã-clube consiste em uma aberração da virtualidade, em absoluta falta de empatia com as vítimas e suas famílias desoladas pela saudade.
O episódio de suspensão das aulas em Novo Hamburgo não é uma exceção. Precisamos nos acostumar com a cautela, com a evacuação imediata, com a mudança abrupta da rotina. É preferível que os pais sintam medo a que se despeçam de um filho no caixão.
Quando ocorre o pior, a sociedade questiona: por que nada foi feito antes? Quando algo é feito antes, ela acha que é paranoia.
Aliás, a medida gera alívio: maior segurança, maior atenção. Fornece credibilidade para confiar os pequenos ao ambiente de estudo. Levanta um escudo com antecedência, na contramão da política da omissão e da indiferença.
Atesta que as autoridades se mostram de radar atento e vigilante. Demonstra que a inteligência da segurança policial e o Ministério Público operam em segredo para desarticular focos e traduzir sinais de alerta.
Não nos encontramos desaparelhados. O crime vem sendo combatido em sua raiz, nas conversas em chats, nas postagens suspeitas e nas interações em grupos privados. Cabe-nos entender que aquilo que não acontece de ruim é proteção.
Dois dias sem aula são muito mais eficazes do que três dias de luto oficial por uma perda.


