
Já fez alguma loucura por amor?
Eu já. E comecei cedo: aos cinco anos. Tinha uma namoradinha no jardim de infância. Anamaria.
Namorar significava ingenuamente andar de mãos dadas. Nada além disso.
Estudávamos no Patinho Feio. Não nos largávamos. Dividíamos a merenda, o Nescau, o bolinho inglês. Mostrávamo-nos inseparáveis nas recreações e nos intervalos. Desenhávamos juntos: eu rabiscava os traços, ela coloria.
Anamaria me protegia, era mais alta do que eu. Com ela, não me sentia tão magrinho e mirrado, tão indefeso e estranho. Ninguém me ofendia na turma quando eu me encontrava sob o escudo de sua ternura.
Para assinalar nossa cumplicidade, na festa do Dia das Crianças, resolvi presenteá-la.
Peguei joias da gaveta da minha mãe. Havia tantas pedras, colares, pulseiras… Achei que não fariam falta. O lugar estava meio bagunçado. Não parecia uma vitrine de loja, não ostentava um aspecto secreto, caro e inviolável.
Embrulhei uma correntinha dourada num papel ofício, escrevi o nome de Anamaria, fechei com durex e lhe entreguei, visivelmente emocionado.
Ela me agradeceu o tesouro com um beijo rápido na bochecha. Bem rápido. Foi mais susto do que beijo.
Não lavei o rosto naquele dia.
Na manhã seguinte, fui chamado à direção. Estavam lá minha mãe e a futura sogra, que me descascou: “como pôde roubar da própria mãe? E de modo precoce? Onde vai parar?”.
Não entendia o tumulto, a censura, as ameaças. Não enxergava diferença entre o que era meu e o que era da minha mãe na época. Ainda não havia lido sobre a luta de classes e o materialismo dialético. Sequer sabia ler direito.
A sogra estava com medo da seriedade daquela relação. Tirou a cisma:
— O que você deseja com Anamaria?
Dei a resposta errada:
— Casar.
Eu vi o pavor crescendo em suas pupilas. Ela insistiu que não deveríamos ficar sozinhos em nenhum momento. Dizia que precisávamos de vigilância.
Ela gritava:
— Ele é um menino, ela é uma menina!
Não fazia sentido o aviso redundante. Eu não captava as ambiguidades, as indiretas.
Por pouco, não acabei expulso. Recebi uma advertência, a havaiana voou em casa, pensei que tudo se ajeitaria depois.
Mas o castigo veio da pior forma. Pior do que o isolamento ou a chinelada.
Anamaria nunca mais voltou. Saiu da escolinha.
Fui tratado como uma companhia perigosa. Pela primeira vez, ouvi a palavra “joio”.
A sogra se referia a mim como “joio de gente”.
Permaneci no Patinho Feio. Jamais virei cisne ao lado da minha coleguinha. Não tive tempo de trocar as penas, de encantar na lagoa.
Foi aí que aprendi uma lição dura: loucura por amor é fácil. Difícil é assumir a responsabilidade por um amor. Partilhar a normalidade das contas e dos problemas. Enfrentar a realidade por alguém.



