
Minha formação musical vem do artesanato acústico dos LPs.
Tinham mais ruído, e mais verdade.
Hoje, os artistas focam em produzir isoladamente uma música, deixando para trás o status de um repertório temático.
Até porque, no Spotify, só ganham destaque as canções mais tocadas.
Perdemos a referência dos álbuns — a autonomia, a identidade, a coerência de uma obra. As doze faixas de uma gravação, de um título, extraviam-se no balaio do aplicativo.
Joga-se fora aquele trabalho cuidadoso de organizar a sequência das músicas. Não há mais um propósito claro para a ordem das faixas, antes meticulosamente pensada para impactar, emocionar ou contagiar.
A narrativa autoral cedeu lugar à lógica de playlists, que misturam gêneros, épocas e nomes. Tudo é antologia, colcha de retalhos.
Quando jovem, eu escutava faixa por faixa. Escolhia a minha favorita pelo instinto, pela paixão, muito além do que recomendavam os algoritmos. Eu me encantava por uma melodia que talvez ninguém mais valorizasse.
A audição também se revelava uma experiência coletiva, um gesto público de rebeldia, sem o esconderijo dos fones de ouvido. O som se espalhava pela casa, irritava os vizinhos, convidava a dançar. Ainda que eu trancasse a porta do quarto, a família, a contragosto, acompanhava os ritmos do meu universo íntimo.
O headphone tirou essa explosão social: cada um vive dentro de sua bolha sonora, guardando segredo de suas trilhas existenciais.
Como era preciso virar o disco, não dava para fazer nada ao mesmo tempo.
Como tampouco havia um botão para acelerar ou pular uma canção, esperávamos do início ao fim.
O momento exigia disponibilidade incondicional. Parava-se a vida diante do altar da vitrola. Uma imersão como nunca mais teremos igual no computador, no celular, no carro.
O hábito sintetizava um período em que éramos hipnotizados pelos ouvidos.
Os olhos e o tato completavam o serviço. A aventura sensorial se aprofundava pela capa do LP. Ela já entregava o espírito da banda, a postura do cantor ou da cantora. Você sabia com quem estava se metendo.
A capa conquistava os fãs, tão valiosa e influente quanto uma pintura.
Algumas delas são icônicas: os quatro Beatles atravessando a faixa de pedestres em Abbey Road (1969); o bebê nadando em Nevermind do Nirvana (1991); a calça jeans de Sticky Fingers dos Rolling Stones (1971); o boné vermelho no bolso de Born in the U.S.A. (1984), de Bruce Springsteen; a banana de Andy Warhol em The Velvet Underground & Nico (1967); a colagem punk em Never Mind the Bollocks (1977), de Sex Pistols; o prisma de The Dark Side of the Moon (1973), de Pink Floyd; Paul Simonon quebrando o baixo em London Calling (1979), de The Clash; David Bowie com o raio pintado no rosto em Aladdin Sane (1973).
Lembro-me de estampas nacionais cobiçadas nas lojas de vinil: as cabeças em bandejas dos integrantes de Secos e Molhados, ao lado de linguiças, cebolas e vinho barato (1973); os dois meninos sentados na terra batida em Clube da Esquina (1972); o desenho de Leonardo da Vinci em Cabeça Dinossauro (1986), de Titãs; a Tropicália reunida e colorida posando como família em Panis et Circencis (1968); o olho de submarino de Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985), estreia de Ultraje a Rigor.
Afora a beleza gráfica das peças, podíamos decorar as composições a partir dos encartes. Muitos amigos de geração aprenderam inglês conferindo as letras impressas.
Você se sentia parte de um movimento. Testemunhava uma tendência. Participava de revoluções de comportamento.
Não me diga que os LPs ainda existem. São artigos de colecionador — caros, escassos, vintage, de nicho, longe da oferta e das milhões de cópias da minha adolescência.
O streaming, que dispensa o espaço físico e se vangloria de sua memória infinita, ofuscou o toca-discos.
Ouvir música não é mais um evento, mas pano de fundo para as demais tarefas.



