
Não há mais orelhões em funcionamento na capital gaúcha. Adentramos no crepúsculo da fofoca.
Sobrevive a carcaça descascada de cerca de 300 aparelhos espalhados por Porto Alegre. Serão retirados gradualmente, até desaparecerem por completo os vestígios de sua existência.
É a extinção de uma espécie, o desmatamento metálico de uma floresta urbana que somava seis mil unidades em 2013.
O famoso abrigo de telefonia pública surgiu em 1972, ano do meu nascimento. Talvez por isso eu me sinta pré-histórico junto.
Era possível encontrá-lo em toda esquina, útil na época para avisar sobre atrasos, cancelar compromissos, pedir socorro.
Andávamos com fichas telefônicas no bolso, vendidas em bancas de jornal. O peso delas puxava o cinto para baixo.
Vivíamos com uma porção, que fatalmente boiava na máquina de lavar, esquecida nas roupas.
Seguindo a lógica da distração, lembro que, menino, buscava arrecadar sobras alheias. Espiava na lingueta se restava alguma moedinha da fala.
Cada ficha durava, em média, três minutos para chamadas locais e menos de um minuto para interurbanas.
Você começava papeando devagar e depois acelerava desesperadamente para finalizar o recado.
Vinha um sinal sonoro que indicava que a ficha estava prestes a acabar, um bip contínuo, algo como “tututu”, nos segundos finais.
Só conseguíamos dizer:
— Vai cair!
Jamais nos despedíamos.
Minha ansiedade é filha dessa tensão ancestral. Não gosto de enrolar até hoje, porque meu raciocínio ainda opera com receio da interrupção abrupta.
Precisávamos enfrentar longa fila. Como não havia cabine fechada, não se tinha privacidade, não se guardava segredo.
Muitas vezes mudei o tom do meu discurso após ser testemunha de um arranca-rabo. Nós nos corrigíamos a partir dos vexames, confissões e excessos da pessoa que estava no gancho. Isso quando não interferíamos ou consolávamos diante de crises de choro ou fúria.
Presenciei involuntariamente discussões, términos de relação, infidelidades. Fui torcida e torcicolo.
No litoral, no período em que metade da família veraneava e metade trabalhava na cidade de origem, formavam-se aglomerações no entardecer para dar notícias. A CRT, inclusive, oferecia uma lan house de telefones, com baias para separar as conversas.
Na ausência de créditos, recorria-se a chamadas a cobrar. Quem estava do outro lado nem sempre atendia, acreditando que se tratava de um trote.
A voz feminina da gravação tirava a nossa tranquilidade:
— Esta é uma chamada a cobrar. Para aceitá-la, continue na linha após a identificação.
Você logo pensava num parente perdido na rua, experimentava um momento de dilema. Crescia uma aflição. Costumava-se ceder por medo de uma tragédia ou acidente.
Como a linha em casa representava um patrimônio para poucos, usávamos o número fixo do ponto para receber telefonemas profissionais pré-agendados.
Arcávamos com imprevistos. Ocorriam falhas por falta de manutenção. Quando o fone emudecia, dependíamos de uma generosa pernada para localizar um novo a quilômetros dali.
O uso das fichas foi substituído lentamente pelos cartões telefônicos no início dos anos 1990, com crédito variável e leitura por chip magnético. Era o princípio do fim. O “tchau” que já profetizava a frequência espaçada, a popularização do serviço residencial, a chegada do celular — o adeus definitivo.




