
Não gostei do novo filme de Celine Song, Amores Materialistas, que registra o dia a dia de Lucy, funcionária de uma agência de casamentos de luxo em Nova Iorque. Como produto autoral, não entrega o que a diretora sul-coreana havia feito em Vidas Passadas, com duas indicações ao Oscar. Penso que o triângulo amoroso composto pelos atores Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal não se mostra convincente. A trama é inverossímil e acaba se rendendo à idealização no fim, o oposto de sua proposta inicial de não ser uma comédia romântica.
Mas a obra gera uma relevante discussão sobre a atualidade dos envolvimentos.
Os tempos mudaram. Os cupidos se aposentaram e cederam lugar ao ceticismo. Não dá para se pautar simplesmente pela atração ou mergulhar de cabeça no acaso.
A responsabilidade afetiva emergiu como alicerce na formação dos casais.
Existe até um termo americano para essa tendência: future‑proofing. Nas paqueras, significa estabelecer filtros, priorizando estabilidade e compatibilidade duradoura desde a largada.
Perguntas antes vistas como interesseiras — como “quanto você ganha?”, “onde mora?” e “quais os seus objetivos na carreira?” — tornaram-se hoje imprescindíveis. Quebram o clima de mistério, sim, mas constroem o terreno da confiança.
Finanças e futuro não são mais uma caixinha de surpresas a ser aberta após longa intimidade.
A prospecção é um efeito colateral, reativo à facilidade dos aplicativos de relacionamento. Amar virou quase uma entrevista de emprego.
Não é mais possível se bastar pela química, enlouquecer, abdicar de pré-requisitos, deixar rolar, improvisar. O romance se transformou em compromisso ponderado, numa tentativa de evitar danos e desencontros traumáticos.
Você não pode colocar alguém na sua casa impunemente. É preciso desvendar quem é o outro, o que ambiciona.
Os flertes silenciosos e telepáticos da sedução, no curto prazo do desejo, já não convencem. Deve-se questionar a postura familiar, os planos de ter filho ou não, o que a pessoa pretende realizar nos próximos dez anos.
São grandes os riscos de se ver enredado numa armadilha com um narcisista, um megalomaníaco, um oportunista, um pilantra, um abusador psicológico. Alguém que se beneficiará da sua presença e a descartará em seguida. Previnem-se ao máximo a dependência tóxica, o ghosting, um laço inventado e desprovido de reciprocidade.
Com a agenda escassa para o prazer e o entretenimento, ninguém procura, em sã consciência, rifar a própria sanidade. O cuidado já se revela no uso obrigatório de preservativos e se estende ao estudo da personalidade e à observação de red flags (sinais de alerta).
Os amores não são tão bonitos quanto antigamente? Concordo, mas terão menos tragédias, menos feminicídios.
É uma visão racionalista? Totalmente, mas combinar a razão com a emoção afasta perigos gritantes.
Se houver uma exceção fora desse retrato falado, que seja honrosa. De quem conquistou sua lealdade. De quem mereceu sua companhia. De quem nutriu amizade e admiração. Alguém com quem você possa conversar espontaneamente, sem preconceito, sem inveja, sem ciúme, e dividir as fragilidades com a certeza tranquila de que aquele confidente manterá segredo.
É fugir do jogo da comparação (quem ostenta mais amigos, mais sucesso, mais apoio) em nome das afinidades de um horizonte em comum.
O coração contemporâneo é complexo e penoso. Exigirá namoro antes do casamento: conter a pressa, a afoiteza, a precipitação, incentivar a escuta, o vínculo, a aceitação.
É temerário se aventurar ou acreditar em unicórnios.
Lembro que, nos anos 70, os jovens rodavam o planeta de graça, pegando carona na estrada. No mundo líquido em que estamos, não há chance de embarcar com estranhos. É fundamental o esforço de conferir a carteira de habilitação, pedir bafômetro, pesquisar dados, cruzar informações.
Não se entra em qualquer carro ou em qualquer história sem conhecer o motorista.
Afinal, é o seu destino.





