
No último fim de semana, fiz uma caminhada na Orla do Guaíba, entre a Usina do Gasômetro e o Beira-Rio. Junto com Dona Cristina, minha esposa, percorri, ida e volta, cerca de nove quilômetros. Mais do que um bom exercício físico, a atividade renovou o espírito.
Encontrei milhares de pessoas de todas as idades, origens e classes sociais compartilhando o espaço com alegria e respeito. Crianças brincando, famílias no chimarrão, esportistas e grupos de amigos compunham o retrato vibrante de uma cidade pulsante. Uma manifestação espontânea de convivência, em um ambiente de paz e liberdade.
No trajeto, aproveitei para passar pelo Parque Maurício Sirotsky, a Estância da Harmonia, e observar a montagem dos piquetes para o Acampamento Farroupilha. Outro local que foi modernizado e ganhou estrutura para receber bem a população, com sanitários, bares, restaurantes, pequenas lojas e áreas de encontro. Entre a Orla e o parque, a Avenida Edvaldo Pereira Paiva, importante ligação entre o Centro Histórico e a Zona Sul, também transformada em espaço de lazer, como sempre ocorre aos sábados, domingos e feriados.
A cidade, normalmente sufocada pelo trânsito e pela correria, assume outro ritmo, outro significado. Enquanto caminhava, lembrei que os três espaços certamente não existiriam como hoje os conhecemos se dependesse da pressão de grupos contrários às mudanças. No caso da Orla do Guaíba, a resistência gerou até uma lamentável cena de grosseria. O renomado arquiteto Jaime Lerner, contratado para ajudar a revitalizar aquele ponto abandonado da cidade, foi vaiado durante uma audiência pública de apresentação do projeto. Na duplicação da Edvaldo Pereira Paiva, a obra enfrentou protestos radicais contra a remoção de meia dúzia de árvores exóticas sem valor de preservação nativa.
É certo que proteger o meio ambiente e o patrimônio histórico é indispensável. Uma cidade não pode destruir seu passado nem comprometer o futuro em nome de qualquer obra. Mas conservar também exige equilíbrio. Nem toda árvore precisa ser mantida, nem todo prédio deve permanecer congelado no tempo. Cidade que não se transforma envelhece. O radicalismo não constrói; apenas paralisa e faz a sociedade retroceder.
Ao avançar e abrir espaço para a renovação, Porto Alegre mostrou que todos saem ganhando — inclusive os que eram contra as mudanças. Por isso, definitivamente, não aos caranguejos, que só querem andar para trás.




