
Uma das histórias falsas que mais circulam nas eleições brasileiras é a ideia de que, se a maioria dos eleitores votasse nulo, a votação inteira seria anulada. Essa conversa começou a aparecer nos anos 2000, espalhada por correntes de e-mail e fóruns online. Com o avanço das redes sociais, a tese volta a ganhar força a cada eleição.
À primeira vista, parece fazer sentido: se ninguém quiser os candidatos, seria preciso começar tudo de novo, com outros nomes. Mas isso simplesmente não acontece.
No Brasil, o que define uma eleição são os votos válidos, ou seja, aqueles em que o eleitor escolhe um candidato. Votos nulos e brancos não entram na conta. Servem apenas para estatísticas. Em um caso extremo, se apenas uma pessoa votar de forma válida, esse único voto já basta para decidir o resultado.
A confusão vem da interpretação errada do artigo 224 do Código Eleitoral, que prevê as regras para a realização de novas eleições caso a Justiça Eleitoral anule mais da metade dos votos. O texto se aplica apenas à chamada nulidade jurídica, em situações como fraude, abuso de poder econômico ou cassação de candidatos. Nessas situações, sim, pode haver nova votação.
Foi o que aconteceu recentemente em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre, onde os moradores tiveram que escolher prefeito e vice em abril deste ano, após a cassação dos eleitos em 2024. Isso é bem diferente de apertar a tecla do voto nulo de propósito.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral já explicou que o voto nulo digitado pelo eleitor não tem peso algum no resultado. O mesmo vale para a abstenção. Ainda que mais da metade do eleitorado deixe de comparecer às urnas, a eleição não é automaticamente anulada. Os votos válidos de quem compareceu continuam definindo os vencedores.
O grande problema dessa narrativa falsa é a capacidade de desmobilizar parte dos eleitores. Ao se abster ou anular o voto, o cidadão não derruba o sistema. Ele simplesmente transfere seu poder de decisão para terceiros. Depois, não adiantará reclamar do resultado. As urnas seguem como instrumento legítimo de transformação política, mas exigem participação e dispensam teorias inúteis alimentadas pela desinformação.





