
Durante séculos, as mulheres precisaram pedir licença para existir na vida pública. O direito de votar, que hoje parece um princípio elementar da democracia, foi conquistado à custa de muita luta.
A Nova Zelândia abriu o caminho em 1893. Os Estados Unidos só garantiram o voto feminino em 1920. No Reino Unido, as sufragistas enfrentaram décadas de resistência até conquistar a prerrogativa de forma plena em 1928. No Brasil, a Constituição de 1934 consolidou a participação política das mulheres, ainda de forma facultativa.
A obrigatoriedade exigida dos homens só chegaria em 1965. Em todos os casos, foi uma vitória arrancada daqueles que insistiam em tratar metade da população como incapaz de pensar, decidir ou participar dos rumos da própria vida. Por isso, causa espanto perceber que, em pleno século XXI, surgem movimentos defendendo justamente o contrário.
Nos Estados Unidos, grupos de extrema direita ligados ao nacionalismo cristão e à chamada machosfera passaram a defender a criação do chamado "voto por lar". Na prática, cada família teria apenas um voto, exercido pelo marido. No Brasil, poucos ainda defendem abertamente a revogação do direito, mas aumentam os ataques à forma de exercê-lo. Casadas seriam apenas extensões da vontade do marido. Solteiras votariam movidas pela emoção, sem a racionalidade atribuída aos homens.
É uma tentativa de desqualificar a participação feminina sem assumir explicitamente o desejo de limita-la. O mais preocupante é que esse discurso encontra apoio até entre mulheres, embalado por uma visão romantizada de um passado em que seu papel era ficar em casa, cuidando do bem-estar do marido e da educação dos filhos.
A história mostra que nenhum direito é irreversível. Basta lembrar o Afeganistão, onde o Talibã suprimiu os direitos políticos femininos pela força. Nas democracias ocidentais, o caminho é mais sofisticado. O ataque não vem por decretos nem por armas, mas por discursos, algoritmos e campanhas digitais que procuram transformar antigos preconceitos em ideias aceitáveis e necessárias.
Assim, é preciso reafirmar que o voto feminino não é concessão, nem favor, muito menos privilégio. É um direito fundamental e inegociável. Foi-se o tempo em que metade da população era obrigada a permanecer em casa e calada.



