
Tenho o máximo respeito por todas as religiões. Não é uma questão de simpatia ou preferência; é o respeito que a Constituição exige de todos nós. O artigo 5º garante a liberdade de consciência e de crença, assegura o livre exercício dos cultos e protege seus templos e liturgias. Esse direito é inegociável e deve ser preservado.
No entanto, discordo quando grupos religiosos tentam impor seus princípios ao restante da sociedade. É o que acontece principalmente na chamada "pauta de costumes", em que posturas doutrinárias buscam interferir em temas como educação, saúde pública ou direitos reprodutivos, ignorando a multiplicidade de estilos de vida que compõem o país.
A sociedade não pode ser refém de interpretações doutrinárias que variam de acordo com cada igreja. A fé pode orientar escolhas pessoais, mas não pode servir de parâmetro definitivo para legislar sobre uma sociedade plural.
Nas últimas décadas, porém, o Brasil assiste ao esforço crescente de igrejas para eleger representantes em câmaras municipais, assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Nada impede que um religioso participe da vida política. O erro está na tentativa de fundamentar leis com base em dogmas, em vez de argumentos jurídicos, constitucionais e civis. Quando preceitos religiosos se sobrepõem ao interesse coletivo, a política deixa de ser um espaço inclusivo e passa a segregar.
A mesma Carta Magna que garante a liberdade de culto determina, no artigo 19, que o Brasil é um Estado laico. Isso significa que o poder público deve ser imparcial, tratando igualmente todos os credos, sem favorecer ou beneficiar qualquer um deles. Parlamentares podem ser guiados por sua fé na vida privada. Mas, ao legislar, precisam olhar para todos.
É justamente por causa dessa confusão de atribuições que vale uma reflexão em tempos de eleições. O eleitor não escolhe um pastor, um padre, um líder espírita ou um rabino para ocupar uma cadeira no parlamento. Escolhe um representante da sociedade, cujo dever é legislar para uma nação diversa em crenças, culturas e modos de vida. Igrejas são bem-vindas como espaços de fé, mas tornam-se inconvenientes quando pretendem ditar os rumos da vida civil de um país que pertence a todos.





