
Mais uma vez, a Copa do Mundo centraliza as atenções do povo brasileiro. É cultural. Mesmo que a Seleção não encante, o coração do torcedor bate mais forte.
Nesse período, conversas de trabalho passam a incluir escalações, o expediente termina mais cedo e até quem normalmente ignora futebol não perde uma só partida do escrete canarinho.
A empolgação é tanta que surpreendeu o experiente técnico Carlo Ancelotti. Acostumado aos maiores clubes do mundo, o treinador admitiu não imaginar a dimensão da paixão nacional pelo evento.
Por aqui, Copa do Mundo é mais do que um torneio. É um acontecimento nacional.
Naturalmente, há quem critique. Não faltam vozes para apontar que o país desacelera, que projetos ficam parados e que uma nação em desenvolvimento deveria dedicar menos energia ao futebol e mais ao trabalho.
O argumento parece lógico. Só que não resiste a uma análise mais criteriosa.
Existe uma velha máxima repetida nas festas de fim de ano: nossa briga com a balança não está no eventual exagero em comida e bebida entre o Natal e o Ano-Novo, mas sim no que se come e bebe entre o Ano-Novo e o Natal seguinte.
Ou seja, o problema decorre dos maus hábitos acumulados ao longo do ano, não de alguns dias de excesso.
Com a Copa acontece algo parecido. Não é a festa do futebol que trava o país, mas a rotina morna e pouco eficiente que se arrasta entre um Mundial e outro.
Está no trabalho feito apenas para cumprir horário. Na precária qualificação profissional. Na resistência à inovação. Na lentidão para incorporar novas tecnologias. Nos excessivos afastamentos sem necessidade. Nas horas desperdiçadas diante do celular ou computador. Nos feriados emendados, nos pontos facultativos e na cultura de empurrar decisões para amanhã.
Nenhum desses obstáculos veste a camisa da Seleção. Nenhum deles dura apenas 39 dias.
O Brasil carrega há décadas a fama de gigante adormecido. Um país de potencial extraordinário que frequentemente tropeça na própria incapacidade de transformar potencial em resultado.
E isso acontece muito longe dos estádios, das transmissões de televisão e dos dias de jogo.
O desafio nacional, portanto, não está em censurar a paixão pelo futebol. O verdadeiro jogo do crescimento acontece nos mais de 1.400 dias entre uma Copa e outra.
É nele que continuamos perdendo de goleada.





