
A maior dificuldade em qualquer debate é quando se precisa provar o óbvio. Poucas coisas são tão evidentes quanto a relevância das vacinas. Elas estão entre as maiores conquistas da Medicina, responsáveis por erradicar a varíola, controlar poliomielite, difteria e tétano, entre outras doenças graves. Durante a pandemia de covid-19, foram decisivas para reduzir mortes e conter a propagação do vírus. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), junto ao saneamento básico, a imunização foi crucial para dobrar a expectativa de vida no último século.
Apesar disso, cresce no mundo um movimento que transforma ciência em disputa ideológica. A resistência não é novidade: em 1904, o Brasil viveu a Revolta da Vacina, quando a população pobre e desinformada reagiu violentamente à vacinação compulsória determinada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. Naquele tempo faltava orientação; hoje, sobra informação e falta responsabilidade.
O retrocesso moderno ganhou força no final dos anos 1990, com o estudo fraudulento do médico britânico Andrew Wakefield associando vacinas ao autismo. Embora desmentida, a farsa prosperou nas redes sociais, alimentando o movimento antivax até alcançar governos – como nos EUA, onde Robert F. Kennedy Jr., opositor declarado da vacinação, assumiu a pasta da Saúde.
No Brasil, que chegou a perder por alguns anos o status de território livre do sarampo devido à queda na cobertura vacinal, há muitos hesitantes: não rejeitam abertamente as vacinas, mas cedem ao temor gerado por notícias falsas. O reflexo é visível.
Na campanha contra a gripe em Porto Alegre, conforme dados do começo da semana, apenas 48,66% do público-alvo havia se imunizado; entre crianças pequenas, a cobertura não chegava a 26%. São pessoas que rejeitam proteção gratuita oferecida pelo poder público para, dias depois, engrossarem as filas de espera em emergências e pronto-atendimentos.
O cidadão comum vítima da desinformação merece esclarecimento. Já políticos, influenciadores e figuras públicas que espalham o medo deveriam ser responsabilizados pelo dano que causam. Porque vírus não respeitam ideologia, doenças não distinguem partidos ou crenças. Cada vez que alguém enfraquece uma campanha de vacinação, fortalece epidemias, internações e mortes evitáveis. Isso não é direito de opinião. É irresponsabilidade fantasiada de liberdade individual.




