
Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. A frase vinha como promessa e consolo, repetida por governantes e líderes políticos, como se o amanhã estivesse garantido. Um mantra que nos fazia aceitar a realidade amarga em nome de dias melhores. Disseram também que era preciso apertar o cinto para o bolo crescer e, então, ser repartido. O aperto veio – e foi duro –, mas o bolo nunca chegou à mesa. No máximo, caíram algumas migalhas pelas frestas do andar de cima frequentado pelas elites.
O tempo passou e o futuro, enfim, chegou. Mas com cara de passado. Seguimos na mesma inércia, como um gigante adormecido que não desperta – não por falta de força, mas pela acomodação de quem deveria acordá-lo.
Entramos no século 21 como um país caro, ineficiente e burocrático, ainda refém de privilégios para poucos e com educação abaixo do recomendável. Para agravar, envelhecemos antes de amadurecer. Hoje, mais de 59 milhões de brasileiros têm mais de 50 anos — quase um terço da população. Esse contingente pressiona um sistema de saúde já sobrecarregado e uma Previdência que não fecha as contas há tempos.
Com a queda na natalidade, a mão de obra minguou. O vigor que deveria destravar o desenvolvimento está se aposentando, exausto de esperar por melhoras que nunca passaram do discurso. O diagnóstico é conhecido, mas o roteiro se repete: reformas são palavras gastas que entram e saem de gabinetes sem transformar a vida real.
Seguimos presos a um jogo político onde um desfaz o que o outro construiu, como crianças mimadas disputando um brinquedo valioso tratado com desleixo. A polarização agrava esse quadro. Direita e esquerda travam um conflito raso, onde a regra número um é anular o adversário. Enquanto isso, no andar de baixo, a população acumula deveres sem colher recompensas.
O horizonte imediato revela um deserto de perspectivas. Percebemos que o futuro deixou de ser promessa e virou simples replay do passado. O sentimento é de que o Brasil nunca foi, de fato, o país do amanhã – apenas um lugar onde a perspectiva do futuro servia de consolo. Agora ele chegou, igual a ontem, só que com mais remédio na bolsa e menos esperança no coração.



