
Quando uma mulher pede socorro, ela já enfrentou inúmeras batalhas silenciosas. Venceu o medo da reação do agressor. Superou a vergonha de expor a intimidade. Enfrentou o julgamento da vizinhança, da família, dos amigos. Uma mulher não procura a polícia apenas porque está insatisfeita com o relacionamento. Ela busca ajuda porque teme pela própria vida.
Foi o que fez Marlei de Fátima Froelick, 53 anos, agricultora de Novo Barreiro (RS). Ela relatou que o ex-companheiro Waldir Abling, de 57 anos, a vigiava, ameaçava pessoas próximas, controlava seus deslocamentos e mantinha armas em casa. Também denunciou episódios de intimidação, como ter os pneus do carro esvaziados. Ainda assim, a Justiça classificou o relato como “desavenças familiares e não violência de gênero”.
Jamais saberemos se Marlei estaria viva caso a medida protetiva tivesse sido concedida imediatamente. Muitas mulheres são assassinadas mesmo possuindo ordens judiciais contra os agressores. A medida protetiva, por si só, não representa garantia absoluta contra a violência. Mas continua sendo um aviso formal do Estado. Uma decisão capaz de dificultar a aproximação do agressor, justificar tornozeleira eletrônica ou prisão preventiva e, principalmente, demonstrar à vítima que ela não está sozinha.
No caso de Marlei, para piorar, quando a proteção finalmente foi autorizada, o mandado foi encaminhado ao endereço errado. Dois dias depois, sem a intimação do ex-companheiro, foi assassinada diante de familiares, numa emboscada armada por Waldir. A morte veio exatamente como ela temia.
Não estou aqui para julgar uma decisão isolada da Justiça, embora discorde frontalmente dela. O caso já foi analisado pela Corregedoria-Geral da Justiça, que não identificou falta funcional na decisão. Retomo o assunto para um pedido simples às autoridades, especialmente aos agentes públicos homens: na dúvida, decidam a favor do lado historicamente mais vulnerável.
Que juízes, policiais e promotores não se orientem pela perspectiva de quem jamais sentirá medo de morrer simplesmente por ser mulher. Não permitam que a cegueira da ótica masculina tente dimensionar a dor e o medo de quem vive sob ameaça. Se for para errar, que seja por excesso de cautela, jamais pela omissão. Porque, depois dos tiros ou das facadas, não existe recurso capaz de trazer vidas de volta.









