
“Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço.” O verso do velho samba atravessa o tempo como um retrato incômodo do Brasil que insiste em se repetir. Não pela leveza da música, mas pela sensação amarga de que o cidadão comum é espectador passivo de um espetáculo degradante, um verdadeiro circo de horrores. A sensação é de ausência generalizada de vergonha na cara. A cada novo escândalo, surgem explicações tão frágeis que beiram o deboche e afrontam a inteligência alheia. Não há constrangimento, não há recuo – há, isso sim, a convicção de que a memória coletiva é curta e seletiva.
A corrupção nunca foi novidade por aqui. O que muda – e para pior – é a postura dos envolvidos. Houve um tempo em que o flagrante provocava algum tipo de vergonha, ainda que estratégica. Afastar-se, silenciar, esperar a poeira baixar eram movimentos quase automáticos. Hoje, o roteiro é outro. O acusado convoca coletiva, encara as câmeras e empilha versões que desafiam qualquer lógica. E o mais espantoso: encontra respaldo na sociedade. Porque a hipocrisia também virou método.
A régua moral oscila conforme a conveniência: se o escândalo atinge o adversário, há revolta, cobranças, discursos inflamados. A condenação é sumária. No entanto, se recai sobre um aliado, surgem ponderações, dúvidas oportunas, teorias que tentam relativizar o inaceitável. O aliado, esse pobre coitado, é sempre vítima da perseguição dos inimigos. E o que deveria ser consenso – a rejeição à desonestidade – vira disputa narrativa. Cada grupo protege o seu, como se houvesse, de fato, corruptos de estimação. No fim, sobra ao cidadão a incômoda sensação de ser feito de palhaço – e a suspeita de que, se reclamar, talvez sobre pouca gente disposta a ouvir. Ou ainda, corre o risco de virar réu em algum processo "do fim do mundo" pelo simples fato de cobrar honestidade.
Brasília funciona como epicentro desse teatro, onde muitas autoridades, como se estivessem no Olimpo, se comportam como deuses acima do bem e do mal. Mas o efeito cascata se replica nos estados, nos municípios, nas repartições menores. Só muda o tamanho da safadeza, proporcional ao orçamento disponível. E enquanto uns e outros se digladiam nas redes sociais, defendendo cegamente seus aliados, o dinheiro público vaza por todas as frestas. É falcatrua que não acaba mais. O que me traz à memória outro samba antigo: "Se gritar pega ladrão, não sobra um, meu irmão".




