
“Nunca fale com estranhos.” Poucas recomendações atravessaram tantas gerações com tamanha força. Ela segue válida – especialmente num mundo em que as ameaças contra crianças e adolescentes também habitam as redes sociais. Mas há um equívoco silencioso nesse ensinamento: enquanto se ergue um muro contra o desconhecido, muitas famílias baixam a guarda para quem já está dentro de casa.
O risco mais frequente não gera desconfiança e nem comportamento facilmente identificável. Ele costuma vir de quem tem intimidade e acesso irrestrito à rotina da meninada. Os números são contundentes: entre 70% e 80% dos casos de violência sexual infantil são cometidos por parentes ou pessoas próximas. É uma estatística incômoda porque desmonta a ideia de que o lar, por si só, garante proteção.
Um caso recente ilustra esse risco. Na semana passada em Belém (PA), o cantor Bruno Mafra foi condenado a 32 anos de cadeia por estupro continuado das próprias filhas. As meninas, em geral, são as principais vítimas, mas a violência sexual não escolhe gênero, como mostra o trágico desfecho do menino de 12 anos estuprado e morto pelo próprio tio em Porto Alegre. São episódios extremos, mas que revelam uma lógica recorrente: o agressor, na maioria das vezes, não é um estranho.
Pais, tios, primos, avôs e amigos aparecem no topo da lista de agressores. O abusador é, geralmente, alguém acima de qualquer suspeita, o que torna a denúncia um processo doloroso. Infelizmente, ainda há quem prefira o silêncio para preservar a família.
Identificar o problema nem sempre é simples. Frequentemente não há sinais físicos, apenas mudanças de comportamento. Diante desse cenário, a prevenção exige presença, conversa, escuta ativa. É fundamental ensinar que o corpo tem limites, que existem toques inaceitáveis – independentemente de quem os pratique – e que nenhum segredo deve ser guardado.
Proteger crianças não é apenas afastá-las do desconhecido. É também ter coragem de desconfiar do óbvio, de observar o cotidiano, de questionar o que parece normal. Porque, como mostram as estatísticas, o perigo nem sempre vem de fora. Muitas vezes, ele já está dentro de casa – e se alimenta justamente de uma confiança que ninguém ousa colocar em dúvida.



