
Há quem ainda se emocione ao falar em paz mundial, em desarmamento, em fim definitivo das guerras. É bonito. É nobre. É humano. Mas talvez seja também ingênuo. Se você é pacifista e acredita no fim das guerras, lamento dizer: está apostando em algo que a própria história da civilização desmente com insistência quase cruel. Desde que o homem deixou as cavernas, ele não abandonou o instinto de resolver disputas pela força. Nos primórdios, era o braço mais forte que se impunha. Depois vieram as lanças, as espadas, os canhões. Com o tempo, a tecnologia permitiu “terceirizar” a violência: não é mais preciso encarar o inimigo olho no olho. Aperta-se um gatilho a quilômetros de distância. Hoje, aperta-se um botão.
Basta uma rápida retrospectiva histórica para perceber que a guerra é quase uma companheira permanente da humanidade. Estimativas históricas apontam que, em cinco mil anos de história registrada, apenas 292 anos teriam sido totalmente livres de conflitos armados. A paz, portanto, é exceção. A guerra, regra.
Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, com seu saldo macabro de 70 a 80 milhões de mortos, muitos acreditaram que a humanidade havia aprendido a lição. O horror das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki parecia suficiente para encerrar de vez a tentação bélica. Durou pouco. Mas já em 1947 começava a Guerra Fria, com Estados Unidos e União Soviética mergulhando numa corrida armamentista nuclear que colocou o planeta à beira do abismo por décadas. Sem confronto direto entre as superpotências, multiplicaram-se guerras regionais, como a Guerra da Coreia e a Guerra do Vietnã. Mudam os cenários, os protagonistas, as justificativas. O impulso destrutivo é o mesmo. Por isso, não surpreende que novos ataques e novas tensões surjam, com líderes como Donald Trump e Vladmir Putin assumindo papéis de fiadores de mais um capítulo da velha história humana de resolver divergências a força.
No meio desse cenário, lembro da voz de John Lennon em Imagine, sonhando com um mundo sem países, sem guerras, sem motivos para matar ou morrer. É uma canção belíssima. Mas é também uma grande utopia. A história sugere que, infelizmente, novas guerras ainda nos esperam. Até que algum desequilibrado aperte o primeiro botão nuclear em escala total. Talvez ali esteja a única guerra capaz de encerrar todas as outras. Não por aprendizado moral, mas por ausência de sobreviventes. Com a humanidade extinta, finalmente não haverá mais conflitos. Não por virtude. Por falta de humanos para continuar apertando o gatilho.





