
No corredor do supermercado, um menino de três ou quatro anos se atira no chão, chora, grita, esperneia porque não pode levar uma guloseima. Os pais resistem por alguns segundos, trocam olhares constrangidos e cedem. O produto vai para o carrinho. A calma volta. Não se trata de um episódio isolado. É um retrato da atualidade.
Vivemos tempos de pais que cedem por excesso de culpa. A jornada de trabalho exaustiva e a ausência forçada no cotidiano dos filhos criam um desejo perigoso de compensação. Para aplacar o remorso de não estarem presentes, muitos transformam o tempo de convívio em um eterno "sim", abolindo regras e freios. O resultado é uma geração criada sem o anteparo da frustração, acreditando que o mundo se curvará aos seus desejos mediante a menor reação de revolta.
Houve um tempo em que o "não" de pai ou mãe era definitivo. Não havia negociação pública, tampouco reversão da ordem para evitar constrangimentos. O limite era claro e previsível: a teimosia poderia resultar em chineladas ao chegar em casa. Essa lembrança não significa defender os métodos do passado. A educação pela força física ficou para trás, e assim deve permanecer. Mas, junto com ela, parece ter desaparecido algo que continua essencial: a firmeza.
Educar nunca foi apenas proteger. É preparar também. E preparar alguém para a vida implica apresentar, desde cedo, uma verdade simples e inevitável: nem tudo será permitido, possível ou concedido. A criança que cresce sem limites acha que pode tudo. Que o desejo precisa ser atendido imediatamente. Que insistir, pressionar ou dramatizar é suficiente para dobrar a realidade.
Mas o mundo não funciona assim. Em algum momento da vida adulta, todos ouvirão muitos "nãos" – de chefes, de parceiros, de instituições. Pessoas despreparadas para isso enfrentarão decepções profundas.
Por isso, dizer "não" também é cuidar. O "não" ensina a esperar. Ensina respeito. Ensina que existem regras que não se dobram ao sabor do momento. Ensina, sobretudo, que o mundo não gira ao redor de vontades individuais. Negar definitivamente não é rejeitar. É orientar, proteger e formar.


