
O caso do cão Orelha, mesmo descartado pela polícia catarinense como resultado de um desafio virtual, serve como sinal de alerta. Trouxe à tona uma realidade sombria que ronda a vida digital de crianças e adolescentes: o zoossadismo fomentado por comunidades obscuras que atuam em plataformas como Discord e Roblox, onde a dor infligida a animais vira moeda de troca. Jovens são instigados a cometer atrocidades, registrar a violência em vídeo e exibir as imagens como troféus. A lógica é cruel: quanto maior o sofrimento provocado, maior o prestígio conquistado dentro do grupo.
Muitos ingressam nesses ambientes movidos pela necessidade de aceitação. Isolados, talvez jamais erguessem a mão contra um animal. Inseridos na bolha digital, ultrapassam limites éticos com inquietante facilidade.
O perfil desses participantes também chama atenção. Em sua maioria, são jovens de classe média, com conforto material e amplo acesso à tecnologia, mas sem acompanhamento familiar efetivo. Quase todos são meninos. A violência funciona como um ritual de passagem, uma encenação distorcida de masculinidade. O agravante é que, diante dos erros cometidos, muitos pais optam por blindar os filhos das consequências, como se tentassem compensar anos de omissão com proteção tardia.
Especialistas que atuam na área do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) são categóricos: esse fenômeno nasce da combinação explosiva entre permissividade familiar sem freios e uso irrestrito da internet sem orientação. O mais alarmante é que a crueldade contra animais costuma ser apenas a porta de entrada para um universo ainda mais sombrio, que pode escalar para violência sexual, automutilação, suicídio e outras formas extremas de degradação humana.
Por isso, pais, muita atenção: a responsabilidade é intransferível. O ambiente digital é tão real e perigoso quanto a rua. Cabe às famílias acompanhar o que os filhos acessam e com quem se relacionam. É indispensável manter diálogo permanente e estabelecer limites claros de tempo e conteúdo no celular, no tablet ou no computador. A internet não é babá. Deixar crianças e adolescentes à deriva no oceano digital é negligência grave, com efeitos devastadores – que começam no sofrimento de um animal indefeso e podem terminar em tragédias humanas irreversíveis. Acordem. Vigilância e educação começam em casa.





