
O ano eleitoral chega marcado pela velha e conhecida polarização. Sem sinais de uma terceira via capaz de costurar algum tipo de unidade nacional, direita e esquerda voltam a centralizar o debate político. De um lado, Lula tenta a reeleição. Do outro, Flávio Bolsonaro foi lançado pelo pai, Jair, embora até entre seus aliados haja ceticismo sobre a viabilidade da sua candidatura. Não será surpresa se outro nome aparecer ou se a direita entrar fragmentada na disputa, com mais de um candidato, para se reagrupar apenas no segundo turno.
Nesse cenário, a confusão mais perigosa não é ideológica. É conceitual. Muita gente já não distingue opinião de teimosia. Opinião é uma posição que se sustenta enquanto os fatos permitem. Pode mudar, amadurecer, ser revista. Teimosia, ao contrário, é a convicção endurecida que sobrevive até quando a realidade a desmente. É o argumento sendo derrotado pelo orgulho.
Na política, essa diferença é decisiva. Um eleitor que tem opinião compara propostas, avalia trajetórias, reconhece erros e acertos. Um eleitor teimoso escolhe um lado como quem escolhe um time de futebol e passa a defendê-lo mesmo quando joga mal. Não importa o placar, a culpa é sempre do juiz, da imprensa, do adversário ou de uma conspiração invisível. Quando o eleitor decide que sua convicção vale mais do que a realidade documental ou científica, ele deixa de ser um cidadão participativo para se tornar um fanático. E, na política, o fanatismo, independente da ideologia, não leva a lugar algum.
Lembro de uma história da juventude, em Esteio. Dois irmãos divergiam sobre um assunto e apostaram uma galinhada. Um deles recorreu ao dicionário e provou que estava certo. O outro, tomado pela teimosia, respondeu: “Muito me admira tu acreditar em livros”. A reação explica boa parte do debate político atual: não falta informação, o que existe é desprezo por ela. A teimosia paralisa, impede o crescimento e o aprendizado. Um país com enormes desafios estruturais como o Brasil não pode se dar ao luxo de um debate surdo, onde as boas ideias são rejeitadas por sua origem, e os erros, repetidos por lealdade cega. Democracia exige mais do que paixão. Exige disposição para ouvir, corrigir e mudar.





