
Pronunciamos “paz” com grande facilidade. Shalom, paix, pace, salām, hé píng, peace. Nos mais variados idiomas, a palavra ecoa em brindes de réveillon, aniversários e em toda sorte de discursos e celebrações. Talvez seja o vocábulo mais repetido do dicionário global. No entanto, diante da destruição praticada pela humanidade, a conclusão é inevitável: a aspiração pela paz é uma das maiores hipocrisias da nossa espécie. Desejamos aquilo que não estamos dispostos a cultivar.
A paz é o ideal de todos até que o primeiro interesse pessoal seja contrariado
A prova de que é apenas um lema retórico está na nossa incapacidade de manter a concórdia no cotidiano. Não é preciso olhar para a Venezuela, a Ucrânia ou a Faixa de Gaza para ver o conflito nascer. Ele surge na reunião de condomínio, na disputa pela vaga de garagem, na intolerância com o barulho do vizinho, na violência silenciosa das redes sociais. A paz é o ideal de todos até que o primeiro interesse pessoal seja contrariado. Quando o “eu” se sente ameaçado, o “nós” é prontamente descartado.
Entre nações, o roteiro é o mesmo, apenas ampliado. A Segunda Guerra Mundial terminou com milhões de mortos e acreditou-se que a humanidade havia aprendido. Puro engano. Logo vieram novos conflitos, novas justificativas, novas bandeiras para o mesmo impulso antigo de enfrentar e dominar. Hoje, multiplicam-se frentes de combate ao redor do planeta enquanto trilhões de dólares sustentam a indústria bélica. Recursos capazes de erradicar a fome e aliviar a miséria são usados para aperfeiçoar a capacidade de destruir e matar. Organizações internacionais tentam costurar diálogos, mas esbarram na muralha da intransigência.
Preferimos investir na aniquilação do outro do que na sobrevivência de todos. Não é falha desta geração. A história da humanidade nunca foi uma narrativa da harmonia, e sim a crônica da dominação. De conquistadores da antiguidade a líderes contemporâneos como Donald Trump e Vladmir Putin, o roteiro se repete: impor vontade pela força. A paz é um desejo abstrato; o poder, uma meta concreta. Talvez a grande contradição humana não seja proclamar a paz sem lutar por ela, mas esconder que não é a concórdia que nos move, e sim o domínio. Enquanto o poder seguir como verdadeiro objeto de desejo, a paz continuará celebrada nos discursos — e traída na prática.




