
O Brasil acaba de alcançar um marco histórico: tornou-se o primeiro país do mundo a contar com uma vacina em dose única capaz de proteger contra os quatro sorotipos da dengue. O imunizante, desenvolvido por pesquisadores do Instituto Butantan e aprovado pela Anvisa, será incorporado ao Programa Nacional de Imunizações e começará a ser aplicado em janeiro. A produção inicial será de um milhão de doses, destinadas a grupos prioritários. A partir de 2026, em parceria com um laboratório chinês, a fabricação deve chegar a 30 milhões de doses, número que poderá dobrar no ano seguinte.
A conquista tem um peso simbólico enorme para nós: trata-se de uma vacina 100% nacional, criada por cientistas que dedicam suas vidas ao fortalecimento da saúde pública. Esse avanço reforça a importância de duas casas centenárias que formam a espinha dorsal da pesquisa biomédica brasileira: o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
As duas entidades nasceram praticamente juntas, no início do século 20, quando o Brasil enfrentava a ameaça da peste bubônica. Importar soro antipestoso da Europa era demorado e incerto, o que levou à criação do Instituto Soroterápico Federal, hoje Fiocruz, em 1900, no Rio de Janeiro, e do Instituto Serumtherápico, atual Butantan, em 1901, em São Paulo. A missão original de ambas era produzir insumos capazes de impedir que a doença avançasse pelo território brasileiro.
Desde então, Butantan e Fiocruz trilharam caminhos complementares, construindo competências científicas que as tornaram referências internacionais. Essa parceria voltou a se destacar durante a pandemia de covid-19. O Butantan foi responsável pela produção da CoronaVac, em colaboração com a Sinovac, enquanto a Fiocruz, por meio de Bio-Manguinhos, fabricou a vacina Oxford/AstraZeneca. As duas foram essenciais para reduzir mortes e permitir a retomada das atividades.
Por seu histórico de serviços prestados, o Congresso Nacional reconheceu em 2021 o Butantan e a Fiocruz como Patrimônio Nacional da Saúde Pública. O título consagra o legado de gigantes como Oswaldo Cruz e Vital Brazil, médicos que lançaram as bases da ciência biomédica brasileira e cujo trabalho continua salvando vidas.
Em tempos de descrença nas instituições, Butantan e Fiocruz se erguem como faróis de competência, ética e compromisso social. Elas não merecem apenas nosso aplauso ocasional; merecem nosso reconhecimento permanente. Celebrar essas instituições é reafirmar a força do saber científico e o seu compromisso com a saúde da população.

