
O Congresso, que deveria ser o grande guardião da democracia, desperdiça tempo e energia para recalcular penas de quem atentou contra o próprio regime democrático, como se o problema fosse matemático, e não moral. Ao mesmo tempo, naturaliza o constrangimento de manter o mandato de uma parlamentar condenada duas vezes pela Justiça, caso de Carla Zambelli (PL), que só saiu por conta própria. Sinal claro de impunidade e autoproteção.
No Supremo Tribunal Federal, o ambiente não é menos nebuloso. Ministros agem como se a liturgia do cargo os colocasse acima de qualquer questionamento. Tudo é tratado com ar de normalidade, como se a sociedade não tivesse o direito de questionar, cobrar explicações ou exigir limites. Quem ousa apontar rachaduras nessa fachada de austeridade corre o risco de virar réu e até ser preso pelo atrevimento.
No Executivo, a principal preocupação é pavimentar o caminho para a reeleição do atual presidente. Para isso, vale quase tudo, inclusive endossar propostas de apelo fácil, como baratear a carteira de motorista sem discutir o impacto no trânsito. Menos custo hoje, mais acidentes amanhã. Mais votos agora, mais vidas perdidas depois. O pragmatismo cínico da política engole a responsabilidade da gestão.
Independentes e harmônicos, diz a Constituição sobre os Três Poderes. Na prática, o que se vê é um conflito permanente, com disputas de espaço e avanços indevidos sobre atribuições alheias. Nem a proximidade do calendário eleitoral não traz esperança de correção de rumos. Tudo indica que a polarização entre bolsonarismo e lulismo seguirá ditando o tom, aprofundando a radicalização e sufocando qualquer tentativa de diálogo. A chance de uma terceira via, capaz de aglutinar o país e construir um mínimo de consenso, é novamente muito pequena, quase nula.
Nesse cenário, o cidadão vira coadjuvante. É lembrado apenas na hora do voto e convocado, sobretudo, para pagar a conta. No cotidiano, convive com impostos altos, serviços precários e instabilidade institucional constante. Os altos escalões de Brasília parecem cada vez mais distantes da vida real, dos problemas concretos de quem enfrenta violência, hospitais lotados, escolas precárias e salário insuficiente. A pergunta que resta é incômoda: até quando aceitaremos pagar a conta de um banquete ao qual nunca somos convidados?






