
Descontente com minhas opiniões e as da colega Rosane de Oliveira, um ouvinte recorreu ao ataque pessoal. Seu recurso? A falsa ideia de que aproximar alguém da atriz Fernanda Montenegro pudesse soar como insulto. “Sabe qual é a semelhança entre vocês e a Fernanda Montenegro? Vocês são pessoas feias por fora e por dentro”, disparou. O que ele não percebeu é que sua investida resultou, na prática, em um imenso e imerecido elogio. Ser colocado, em qualquer dimensão, ao lado de uma lenda como Fernanda Montenegro é honra inestimável. É estar na companhia de um consenso nacional – salvo a minoria barulhenta de radicais que, cegos pelo rancor, não enxergam além de seus próprios preconceitos.
Fernanda Montenegro representa a própria síntese da excelência. Mais que a “maior atriz do Brasil”, título que sustenta com naturalidade há décadas, ela é patrimônio vivo da cultura nacional. Sua trajetória é testemunho de talento, integridade e inteligência. Entre tantas conquistas, foi a primeira latino-americana indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Central do Brasil, venceu o Emmy Internacional, recebeu o Urso de Prata em Berlim e, em 2021, tornou-se a primeira atriz eleita para a Academia Brasileira de Letras — marco que coroa uma vida dedicada à palavra e à emoção.
Sua grandeza ultrapassa palcos e telas. Recusou por duas vezes o Ministério da Cultura, demonstrando rara clareza sobre seu papel no mundo: o da arte. Mulher avessa a rótulos, sempre se guiou pela cidadania e, em momentos decisivos, não hesitou em defender a democracia. Essa postura, possivelmente, foi o que a colocou na mira de nosso ouvinte e de outros intransigentes incapazes de tolerar a pluralidade de pensamento.
A acusação de ser “feia por dentro” não resiste a biografia de uma mulher cujo interior é feito de méritos, coragem e dignidade. Já a alegação de “feiura por fora” revela a miopia de quem não compreende que a beleza vai além dos padrões efêmeros da juventude. Prestes a completar 96 anos, Fernanda Montenegro é o oposto da feiura. Seu rosto, marcado por rugas, é a moldura de dezenas de personagens inesquecíveis. Seus cabelos brancos formam uma coroa de lucidez e serenidade. Ela ostenta a elegância da experiência, a beleza da sabedoria e o esplendor de quem vive intensamente. Prova de que a verdadeira feiura está na ignorância, no ódio fácil e na recusa em reconhecer a grandeza alheia.





