
Os governadores Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) vêm se apresentando como porta-vozes da pacificação nacional. O discurso parece ensaiado: falam em “reparar injustiças”, “virar a página” e “olhar para o futuro”, colocando a concessão de indulto a Jair Bolsonaro como gesto máximo de conciliação. A narrativa, porém, desmorona diante do exame mais simples. Sob o véu de aparente bom mocismo, esconde-se um cálculo eleitoral óbvio.
Quando Caiado promete “unir o país” ou Zema sugere “passar uma borracha no passado”, não projetam o futuro da democracia, mas as urnas de 2026. Sabem que Bolsonaro, já inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral, dificilmente disputará a próxima eleição. Também sabem que os votos do bolsonarismo continuam sendo ativos valiosos. Daí a encenação: cada um se apresenta como herdeiro do espólio político, na expectativa de receber a bênção do ex-presidente e, com ela, o apoio da sua base eleitoral.
A retórica de “pacificação” não resiste à realidade. Pesquisa Datafolha recente mostra que 48% dos brasileiros defendem a prisão de Bolsonaro. Ou seja, a anistia não é consenso. Ao contrário, uma parte expressiva da população exige responsabilização. Tarcísio, Zema e Caiado conhecem esses números, mas preferem ignorá-los para agradar aos bolsonaristas. A construção da anistia como caminho natural de união nacional é, na verdade, um artifício político voltado a um grupo político específico.
O suposto bom mocismo dos três — palavras polidas, tom conciliador, frases ensaiadas — é mera maquiagem. O que realmente os move é a disputa pela herança eleitoral do líder direitista. Comportam-se como herdeiros impacientes, que brigam pelo patrimônio antes do testamento. No fundo, não estão preocupados em reconciliar o país, mas em se cacifar para a corrida presidencial, sempre atentos ao risco de o ex-presidente transferir o apoio a alguém mais próximo, como a esposa Michelle ou um dos filhos.
Sob a aparência de estadistas, a verdade é cristalina: Tarcísio, Zema e Caiado não falam de pacificação, mas de poder. O indulto não é proposta de grandeza, e sim de conveniência. O objetivo é assegurar o carimbo de Bolsonaro no passaporte de ingresso no Planalto. No fundo, a encenação tem menos a ver com o futuro do país e mais com uma disputa mesquinha pelo espólio político do líder. É puro teatro eleitoral, com enredo pobre e egoísta.




