
Recomendo cautela a quem já decreta o fim da carreira política de Jair Bolsonaro após a condenação a 27 anos de prisão imposta pelo Supremo Tribunal Federal. Não se trata de defendê-lo — já afirmei e reitero que não haverá estabilidade enquanto o Brasil continuar refém da polarização entre direita e esquerda. O país precisa de uma terceira via capaz de devolver racionalidade à política.
Essa convicção, contudo, não me impede de encarar os fatos: mesmo condenado, Bolsonaro ainda conta com o respaldo de milhões de brasileiros. Arrisco dizer que teria sido reeleito em 2022 se tivesse evitado duas ou três declarações desastradas durante a pandemia.
O deboche às vítimas, a banalização do vírus como “gripezinha”, a piada com vacinas, a ironia sobre máscaras e até o gesto de retirar a proteção do rosto de uma criança de colo foram atitudes que o eleitorado moderado, sobretudo as mulheres, não perdoou.
Esse segmento, que em 2018 o enxergava como alternativa ao PT, não tolerou o desprezo à vida e acabou migrando para Lula — em muitos casos, com enorme resistência. Ainda assim, a derrota foi mínima: 1,8 ponto percentual, pouco mais de dois milhões de votos em um universo de 118 milhões de eleitores.
Bolsonaro construiu sua trajetória dizendo o que pensava, sem filtro. Durante três décadas, suas falas sobre tortura, direitos humanos e costumes o mantiveram no folclore da política. Mas o discurso antipetista e a promessa de renovação o levaram ao Planalto em 2018.
No poder, ignorou que a liturgia do cargo exige moderação. A mesma franqueza que o impulsionou à vitória lhe custou o segundo mandato. Agora, pesam contra ele crimes contra a democracia, pela tentativa de golpe articulada com aliados.
Ainda assim, decretar o seu ocaso é precipitado. O paralelo com o atual presidente é inevitável. Em 2018, quando Lula foi preso, muitos apostaram no fim de sua trajetória. Menos de quatro anos depois, ele voltava ao Planalto.
A história brasileira mostra que mortes políticas são quase sempre provisórias. Do improvável Sarney, que assumiu a Presidência com a morte de Tancredo Neves, ao retorno de Lula, passando pelo impeachment de Collor e Dilma, o país é mestre em reviravoltas. Quem garante que não possa ocorrer mais uma com Bolsonaro?




