
Ela era ciumenta, tinha problema. Era fora da casinha, feia, insegura e exagerada. Essas são algumas das expressões mais ditas por presos por violência doméstica quando falaram sobre os casos pelos quais respondem. São homens que praticamente se sentem vítimas de mulheres, como se tivessem sido mal interpretados.
Essas informações fazem parte da pesquisa “Sobre Eles”, feita em uma parceria da Unijuí e da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo do Rio Grande do Sul. Entender o que os homens pensam e sentem é importante quando falamos de um crime causado por uma cultura entranhada de machismo e que só chama atenção quando vemos uma mulher sendo sepultada. É preciso evitar, prevenir, educar.
O boletim aponta a menção recorrente ao uso de celular e redes sociais pelas esposas como espaço de fuga, fazendo com que eles percam o controle sobre a vida das mulheres que consideram suas. Algo como uma afronta à honra masculina, ou um desrespeito.
É preciso deixar claro que definir roupa ou contatos também é uma forma de controlar a mulher. E isso ainda é difícil de ser entendido pelos homens presos, que têm dificuldade de reconhecer uma agressão, mesmo a física. Depois de culpar a vítima, entram no ranking das desculpas o uso de drogas ou bebida, que afloram os sentimentos negativos.
Em março de 2026, 6.554 homens presos no Estado tinham histórico de crimes relacionados à violência doméstica, o equivalente a 12,8% de toda a população carcerária masculina. O crescimento é expressivo: em novembro de 2025, eram 5.575. A tipificação mais comum é o descumprimento de medida protetiva, seguida de crimes enquadrados na Lei Maria da Penha e lesão corporal. O perfil predominante é de homens adultos entre 35 e 45 anos. A maioria, quase dois terços, tem filhos. Somente em relação a esses 80 homens ouvidos na pesquisa, identificou-se que 234 crianças foram impactadas diretamente pela violência. Em 35% das entrevistas, os filhos presenciaram os atos violentos.
Outro aspecto é que muitos desses homens viveram a mesma violência em casa, quando eram apenas filhos. Sete em cada 10 vivenciaram conflitos ou vulnerabilidade, especialmente violência física contra a mãe, alcoolismo do pai e discussões recorrentes. Em vez de quebrar ciclos, eles continuam fazendo.
É — ou precisa ser — perturbador que homens agressores pensem que são injustiçados. Enquanto a sociedade pede punição mais rigorosa, o problema se mostra mais profundo. O próprio boletim recomenda a criação de um modelo de gestão integrada, que tenha programas obrigatórios de responsabilização e intervenção psicossocial, sistema de classificação de risco de reincidência e atuação integrada entre Justiça, Saúde, Assistência Social e Segurança Pública. Ainda temos muito a avançar, passando por diversos aspectos, até essa praga da violência contra a mulher diminuir.





