
Mesmo lutadores de boxe e MMA ficam parecendo anestesiados depois de uma série de socos e golpes. Eles são treinados para isso, mas sentem o baque quando o confronto é pra valer. Há ainda casos isolados, mas muito preocupantes, como os do soco na nuca, perigosíssimo, proibido, e que pode causar a morte imediata em situações mais graves. Em 2015 um lutador jovem e promissor portoriquenho perdeu movimentos e a vida como ela era após uma luta desigual. Os efeitos foram irreversíveis.
Não sou fã das lutas, mas acho que elas podem nos ajudar a entender o ânimo do brasileiro após cada nocaute. Sem precisar pesquisar os últimos anos, logo lembramos de Mensalão, Petrolão, tentativa de golpe de estado, escândalo dos selos, operação Rodin, fraude das merendas, do material escolar, do INSS, banco Master. É soco atrás de soco. Chega uma hora que a reação vira impossível. Caímos duros, sem forças para revidar ou reclamar. Somos chamados de guerreiros, mas a palavra correta é exaustos.
Os casos que envolvem mensagens, caronas e contratos milionários e ministros do Supremo Tribunal Federal com Daniel Vorcaro, banqueiro envolvido em tramoias e agora preso, são comparáveis ao soco na nuca, aquele que é proibido e perigoso. Se essas relações não são explicadas com clareza, a situação fica ainda pior. Podemos estar falando de relações imorais, mas não ilegais, mas se não temos transparência, fica complicado saber.
As explicações até agora não dizem nada. A conduta de ministros deveria ter lisura e cuidado, exatamente para tentar manter o que deveria ser mais caro à Suprema corte, que é a credibilidade. Ainda não entendi por que Vorcaro enviou uma mensagem a Alexandre de Moraes momentos antes da prisão e, mais ainda, porque a resposta foi enviada em mensagem de visualização única. Porque Dias Toffoli pegou carona no jatinho. Se as ligações com o resort do ministro são legais e morais, isso também não saberia lhes dizer, simplesmente porque nem eles souberam vir a público e explicar. Porque sim, eles devem explicações, embora pareçam estar acima do bem e do mal.
Pelo bem da instituição e de sua respeitabilidade, era o próprio Supremo, através de seus ministros, todos eles, que deveria estar preocupado em melhorar sua imagem. Se o Procurador-Geral da República nada faz, os colegas deveriam se unir pela credibilidade do STF. Se não for assim, a campanha para o Senado tratará disso em 2026, misturando possíveis desvios de conduta com mera insatisfação por decisões. Só o Supremo pode ajudar o Supremo.





