
Entre as histórias de As Mil e Uma Noites, poucas são tão lembradas quanto a de Ali Babá e os quarenta ladrões. Mas o personagem que melhor explica a moral da história não é o herói. É seu irmão. Cassim, o irmão do personagem principal, já era rico quando descobriu de onde vinham algumas moedas de ouro que apareciam na casa do irmão mais pobre. Não resistiu à curiosidade e à cobiça. Invadiu a famosa caverna dos quarenta ladrões.
Diante das montanhas de ouro, perdeu a medida. Quis levar tudo. Encheu sacos, imaginou mais sacos, pensou em quantos ainda caberiam. Na hora de sair, dependia apenas da frase mágica: “Abre-te, sésamo”. Trapalhão e atordoado pela própria ambição, esqueceu as palavras. Ficou preso na caverna.
Cassim vivia de aparência e da riqueza da esposa. Para a sociedade, era bem-sucedido. Para a história, ocupou o rodapé das páginas do livro. Virou o personagem que, rico demais, quis ainda mais riqueza e acabou morto. Achou que, no atalho, ficaria mais poderoso. Não contava com os quarenta ladrões, que não aceitavam ser enganados. O conto atravessou séculos justamente por isso: não fala apenas de ladrões e tesouros, mas da fraqueza humana diante do dinheiro fácil.
O ouro o deixou cego. Assim como Daniel Vorcaro, o banqueiro superpoderoso e cheio de amigos. O homem que pagou casas luxuosas, carros, viagens e caronas em jatinhos privados. Em mensagens que vieram a público, aparece também bancando encontros com mulheres estrangeiras que não falavam português e, por isso, não poderiam relatar o conteúdo das conversas privadas. Mesmo esse sistema supostamente seguro acabou exposto em mensagens de WhatsApp encontradas nos diversos celulares de Vorcaro.
Até mesmo diálogos íntimos com a namorada acabaram escancarados. A vergonha pública não se limita à fraude financeira que hoje cerca o caso. Há conversa de mafioso. Há ameaças. Há relações estranhas.
O subsolo dessa história, ou a caverna dos quarenta ladrões, aparece quando surge a ideia de simular um assalto para “dar um pau”, como ele próprio escreveu, em um jornalista. Manipuladas como são, as redes sociais assistiram à formação de uma milícia digital contra os mensageiros. É preciso entender que esses canais e perfis de bolha muitas vezes mentem ou dizem apenas o que queremos ouvir. Criam identificação, mas também instrumentalizam os ingênuos.
No fim das contas, Daniel Vorcaro, assim como Cassim, não será lembrado pela riqueza que acumulou, mas pela incapacidade de reconhecer o limite da própria ganância. Resta saber quem são os outros quarenta ladrões. E se ele ainda lembra da frase que abre a porta de saída.





