
Tenho uma dificuldade grande de pensar em um famoso pelo qual eu ficaria horas esperando na fila ou faria grandes sacrifícios. Não tem um que eu tatuaria na pele. Seja na música, no futebol, nas novelas, nas redes sociais ou filmes. Admiro o trabalho de muita gente, é claro. Me inspiro em alguns comportamentos. Gosto e vibro com falas. Aprendo com quase todos que observo. Adoro filmes de Natal, mesmo aqueles com roteiro previsível. Sempre devorei livros da Agatha Christie. Sei cantar muitas músicas, de diferentes estilos. É diferente de acampar ou entrar em filas quilométricas.
Isso não é uma crítica aos fãs do que quer que seja. Acho legal ter referências. Talvez eu até fosse mais feliz se vivesse à espera do dia em que encontraria Brad Pitt ou George Clooney. Sonhar um pouco é bom, mas os meus sonhos não incluem famosos. Tem comida, viagens, família, mas nunca tem atores e cantores.
No último sábado vi uma legião de especialistas nas redes sociais sobre a invasão dos Estados Unidos e prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Para minha surpresa, ou nem tanto, havia defensores de Trump e de Maduro como se fossem estudiosos do tema. Ou, na versão brasileira, bolsonaristas e lulistas disputando quem estava certo no cenário internacional. Não se tratava mais da Venezuela, e sim das preferências entre direita e esquerda. Não era sobre geopolítica, era sobre gosto pessoal. Sobre ídolos que nem nos conhecem.
Nessa semana vimos também influenciadores que foram pagos, e muito bem pagos, para defender o Banco Master e Daniel Vorcaro enquanto atacavam o Banco Central. Por que cargas d'água nos deixamos levar por personagens da internet que prometem mostrar a verdade que a grande mídia não conta? Pessoas absolutamente desqualificadas para apurar, denunciar ou de fato influenciar.
Estamos nos apaixonando muito fácil por teorias que queremos que sejam verdade. Por bolhas que dizem o que queremos que aconteça. Por quem fale o que a gente quer ouvir. Isso tudo na mesma medida em que cancelamos tudo muito rápido. Se não concordamos, deixamos de conversar e passamos a não gostar mais. Se a posição política é diferente da nossa, abandonamos até mesmo nosso artista favorito. Passamos a fazer filas para quem pensa ipsis litteris a nós. Viramos aquele cavalo vendado que não consegue enxergar fora do caminho.
Como tudo na vida, a diferença do remédio para o veneno é a dose. Ter ídolos, de forma saudável, é bonito e contagiante. Idolatrar, venerar, adorar a ponto de não enxergar o óbvio é o que preocupa.


