
Não conheço o advogado investigado por supostamente abusar de mulheres com as quais se relacionava em Porto Alegre, nem vou falar somente dele. A reflexão aqui é maior.
Poderia ser Conrado ou qualquer outro nome. O ponto é discutir como homens se comportam em relação ao sexo oposto e também entre si.
Na última semana, a novela Dona de Mim exibiu uma cena que repercutiu nas redes. A personagem de Giovanna Lancellotti toma banho quase arrancando a pele por se sentir suja e culpada após ser estuprada. Um tema sensível, tratado com cuidado, mas de forma marcante em um veículo de massa. Chocante, porém imediatamente compreendido por muitas mulheres.
Em um dos posts sobre a cena, arrisquei-me a ler os comentários. Um território perigoso, de tantas bobagens ditas atrás das telas. Mas o que me chamou atenção foi a ausência masculina. Vi praticamente só mulheres debatendo. Foram mulheres que me levaram até ali com seus reposts. Homens dificilmente se engajam em assuntos “de mulheres”. Não encontrei muitos entre os milhares que comentavam. Encontrei, sim, inúmeros relatos de mulheres que viveram situações semelhantes, que sentiram a dor da cena, que compartilharam o medo que só quem é mulher conhece: o de sofrer abuso.
Homens temem assaltos. Mulheres temem ser violentadas. E ninguém que não viva isso compreenderá a dimensão desse medo.
Um homem pode ter receio da vingança de uma ex-companheira. Já a mulher teme ser morta. Pode ser violentada até por quem deveria protegê-la. Os homens, quando acuados, se protegem mutuamente. Mesmo estranhos, acionam um mecanismo de defesa da própria espécie. As mulheres, por sua vez, muitas vezes apontam o dedo umas para as outras.
É urgente mudar essa lógica. Precisamos falar com meninos, não apenas com meninas. Mostrar o que é aceitável e o que nunca será. Ensinar limites. Educar para relações respeitosas. Conversar em casa, na escola, nos espaços de convivência. Um menino que cresce sem ouvir “isso não se faz” vai aprender no grito da vida, e quase sempre quem paga o preço são as mulheres ao redor dele.
Se um menino cria um perfil em rede social hoje, o algoritmo logo percebe e sugere conteúdos misóginos, violentos e degradantes. Se não for orientado, consumirá isso como entretenimento, achará normal, repetirá falas e comportamentos. Por isso os pais precisam estar atentos: conversar sobre pornografia, sobre consentimento, sobre respeito, antes que a internet ensine de forma distorcida. Esse não é um assunto restrito às meninas, mas uma pauta urgente para as famílias.
Conrados precisam entender que não basta ter status ou cargo. Não basta estudo. Não basta parecer honesto. É preciso ser.



